domingo, 16 de março de 2014

Fortaleza: Cada viagem de ônibus é uma história

Por Sara Oliveira
Utilizar transporte coletivo em Fortaleza é um desafio. As condições de um sistema precário maltratam usuários e denunciam problemas estruturais, sociais e políticos. Mas o fortalezense, mesmo vítima de uma mobilidade urbana ineficiente, precisa deslocar-se e, para muitos, os ônibus ou vans são as únicas opções. Para driblar o tempo de espera, tanto nos pontos de ônibus quanto dentro dos veículos, os passageiros vivem histórias e sensações, criando um universo à parte, onde costume, tradição e cultura fundem-se e retratam o cotidiano de uma cidade. 

Fones de ouvido e celulares são os principais acompanhantes daqueles que aguardam condução. A leitura é um hábito que parece crescer meio por acaso, quando há um jornal disponível ou um livro na bolsa. A correria do dia-a-dia, muitas vezes, torna ainda mais distantes pessoas que sai dividem o mesmo transporte. Rumos distintos e pessoas diferentes, tornando pontos de ônibus, coletivos e terminais cada vez mais vivos e parte da vida das pessoas. 

Viagem individual no coletivo
Em um dos ônibus da linha Santos Dumont/Bezerra de Menezes, 11 pessoas estavam sentadas. O motorista decide a trilha musical da viagem. Olhares perdidos para o movimento do lado de fora da janela, cabeças baixas que demonstram o cansaço de um dia de trabalho e poucas conversas paralelas. Esse era cenário dentro do ônibus, em um trajeto de pouco mais de 10 minutos, na sexta-feira à tarde. 

“A individualidade é tão grande que as pessoas sempre procuram um lugar vazio para sentar, a preferência não é estar ao lado de alguém. Além do cansaço, a falta de segurança nos faz ficar ainda mais isolados”, analisou a professora Adriana Belchior. No percurso que ela faz todos os dias, que dura aproximadamente 25 minutos, ver os ex- alunos é uma das melhores sensações que a viagem de ônibus proporciona. “Muitos eu já não vejo há anos e encontro por aqui. É bom saber da vida deles, mesmo que a conversa seja por acaso e por pouco tempo”, frisou. “Tchau, vou descer na próxima”, finalizou Adriana, seguindo o fluxo de sobe e desce tão comum nos coletivos. 

Música, namoro e criatividade 
No terminal do Papicu, a tarde registrou muitos momentos. O local para integração dos coletivos transforma-se em pontos de encontro para namorados, pausa para cortar as unhas, fumar um cigarro ou comer um lanche. O casal Ana Beatriz Ribeiro, 18, e Daniel Bezerra, 21, aguardava, abraçados, o ônibus que os levaria à faculdade. “É bom porque a gente conversa, conta como foi o dia um do outro e aproveita para dar uma namoradinha todo dia”, falou Ana Beatriz. 

Em uma das filas de espera do terminal, uma música de hip hop chamava atenção. Mesmo com a música tocando em som alto, as pessoas pareciam não importar-se. O responsável pelo fundo musical era o estudante de Publicidade e Propaganda Tibério Correia, que contou sobre a importância dos trajetos feitos diariamente. “Passo muito tempo dentro de ônibus e olhar a cidade me dá muitas ideias. Para mim, todo tempo é ouro, e aproveito as horas que estou viajando para criar e imaginar. É uma forma de eu estar parado, mas produzindo”, avaliou. 

Não importa o modo como os fortalezenses decidem “matar” o tempo durante o trajeto ao trabalho ou escola, o dinamismo da capital do Ceará acaba por fornecer uma mobilidade necessária, todos os dias. O fluxo de idas e vindas inspira os próprios passageiros, que mesmo sem contarem com uma estrutura adequada, continuam a ir e vir, driblando, tentando e torcendo para que as histórias de viagem possam ter um cenário físico mais positivo.

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