segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Fortaleza: Um giro pelo Grande Circular

Por Henrique Araújo
O Grande Circular é uma linha superlativa. Leva cerca de duas horas e cinquenta minutos para dar uma volta na cidade: percorre as avenidas Perimetral, Washington Soares, Leste-Oeste. Atravessa um sem-número de bairros: Siqueira, Antônio Bezerra, Henrique Jorge, José Walter, Serviluz, Papicu, Messejana, Água Fria, Aldeota. E cruza quatro dos sete terminais: Papicu, Siqueira, Messejana e Antônio Bezerra.

Na primeira quinzena de abril, cumpri à risca a edificante experiência. Acordei às 5h30min e engoli o café às pressas. Pouco antes das 7 horas, entre cotoveladas e pisadas, embarquei no GC I. O local da subida: um terminal do Siqueira fervilhante. A descida: Siqueira novamente. Tempo de percurso: quatro horas. Clima: primeiro fez sol, depois chuva e, mais uma vez, sol. Som ambiente: nenhum. A única música entreouvida veio de um celular. Era Marcelo D2. Disparou de repente num trecho da Leste-Oeste.

A bordo do Grande Circular, a paisagem da cidade muda radicalmente. Vai do verde das hortas e capinzais num primeiro trecho da Perimetral aos luminosos espocando frenéticos na área mais nobre. A publicidade, presente em faixas, panfletos, neons ou fachadas de lojas improvisadas, muda sensivelmente. 

Ainda na Perimetral, na altura do José Walter, é possível deixar o carro no ``Bernardino Lavajato`` e enganar a fome no ``Pastel sem vento``. Ou sair do ``Peixe vivo`` e parar no famoso ``3000``, conforme as latências do corpo do viajante o peçam. Na Washington Soares, mudam as cores, as grifes. Sai o ``Peixe vivo``, entra o ``Via Sul``. Sai o ``3000``, entra o ``Dragon Motel``. 

Ainda na Perimetral, há a igrejinha de nome gradiloquente: Ministério Mundial do Reino de Deus. Cumpre a função de posto avançado da fé em Deus numa via absolutamente dominada por motéis. 

Outros passageiros No ônibus, os passageiros também mudam. Do Siqueira para o terminal de Messejana, o GC consome quase 50 minutos. Às 7 da manhã, é comum ver pessoas cochilando abraçadas a pastas e sacolas. Não se importam se têm a boca aberta. As mulheres buscam proteger os decotes contra aqueles que não descansam mesmo tão cedo. E os homens, abraçam carteiras, bolsas térmicas. É carência, talvez. 

Em Messejana, parte significativa dos passageiros desce. A turma que vai para o Papicu é diferente. Mais bem vestida, perfumada, elegante. Muitos saltam na Washington Soares. A moda é outra. As meninas vestem calças Runaway e exibem sandálias de plástico com um laço esquisito pendendo. Entra em cena o velho amigo das canetas, o rapaz da Casa Manassés. Sem música, o sono é inevitável. Dormir no ônibus requer alguma habilidade enigmática.

A sonolência só passa quando chegamos ao terminal do Papicu. Lá, a troca de ônibus obriga a esperar o próximo GC numa fila ao lado do banheiro masculino. A fedentina faz qualquer um ficar alerta. O ônibus não demora tanto. São 8h30min. A viagem já dura uma hora e meia. Guabiras, o ilustrador, está desconfiado. 

O trecho final, do Papicu até o Siqueira, passando pelo terminal do Antônio Bezerra, é agitado. Há uma novidade no traçado das ruas da cidade: a cratera da Leste-Oeste. Não é como os buracos que estamos acostumados a ver nas ruas. Era realmente uma cratera. Como a que provocou a queda do meteoro que trouxe o Super-Homem à terra, ela foi responsável por um atraso de quase uma hora e um avanço de três quarteirões. É um momento tenso. Começa a chover. A paralela à Leste-Oeste está engarrafada. O GC havia despachado boa parte dos seus passageiros na Abolição, Beira Mar, Praia de Iracema. Ainda assim, enquanto dura a irritação provocada pelo contratempo, a prefeita é persona non grata no coletivo (eles não sabem que a ``culpa`` do buraco é da Cagece). Muitos a xingam e olham para o cobrador, como se fossem grandes amigos. 

Pausa para o lanche no Antônio Bezerra. São 10h40min. A viagem já não tem o menor sentido. O ilustrador está tonto, e, não bastasse, resolve comer um pastel numa lanchonete. O fim da epopeia, dali a 20 minutos, no Siqueira, novamente embarcados no Grande Circular, seria marcado por dores no estômago. Nada que boa parte dos usuários dos transportes públicos da Cidade não enfrentem, corajosamente, todo santo dia.

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