segunda-feira, 10 de março de 2014

Fortaleza: Antes binário do que viaduto

Por Marcelo Filho
Na última sexta-feira, a Prefeitura de Fortaleza anunciou as primeiras ações a serem realizadas por meio do Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito (PAITT) nos próximos meses. Entre elas, está a implantação do sistema binário entre as avenidas Santos Dumont e Dom Luiz em 31 de maio próximo, que contemplará corredor prioritário para transporte coletivo, ciclofaixas e o ganho de mais faixas para os demais veículos. A medida acarretará na retirada de árvores que estão no canteiro central das avenidas e, no caso da Dom Luiz, a remodelação da Praça Portugal, para que seja viabilizado um cruzamento no lugar da atual rotatória.

E é justamente nessas questões ambientais, arquitetônicas e valor histórico que reside o enredo do que promete ser mais uma novela e uma pedra no sapato da administração municipal.

O argumento pró-verde sustenta que a retirada das árvores irá provocar aumento nos índices de calor em uma cidade que já é carente de espaços arborizados. Em consonância com o discurso ecológico, vem o argumento daqueles que julgam a divisão da Praça Portugal em quatro partes um prejuízo histórico incalculável. Seriam 60 anos de história, preservação do arranjo arquitetônico e de espaços públicos de convívio jogados por baixo de asfalto. Manifestações contrárias às medidas estão sendo articuladas.

Todos esses elementos nos remetem ao mesmo imbróglio envolvendo a construção dos viadutos no Cocó. Cenas dos próximos capítulos.

É preciso ponderar que Fortaleza não comporta mais o ritmo frenético de seus nativos em se tratando de mobilidade. Ações emergenciais, tal como sugere o PAITT, devem ser postas em prática. Não é a toa que o plano não prevê intervenções de grande impacto, como a construção de viadutos e túneis ou desapropriações (o que deve ser reconhecido), nos locais de tráfego mais denso, visando soluções a curto prazo. Os binários se apresentam como uma solução eficiente e não demandam interferências significativas em infra-instrutura.

A Praça Portugal, infelizmente, foge à essa regra. Fiquemos somente por esse tópico.

Rotatórias não estão dando conta. Ainda mais com os "corteses" condutores que não possuem a generosidade de dar passagem ao seu colega, em uma guerra que não se sabe de quem é a preferencial. No caso específico, as dimensões do girador são estreitas, assim como as demais avenidas que a circundam, e não favorece a fluidez de veículos e coletivos. Principalmente coletivos, que amargam os atrasos decorrentes dos engarrafamentos ali formados. O acesso à praça é quase uma missão impossível. A mesma "cortesia" dos motoristas também atinge os pedestres, que não dispõem de qualquer equipamento que permita a travessia.

O espaço ganha vida somente aos finais de semana, onde jovens de várias tribos se encontram para divertirem-se, cada um à sua maneira. E só. Nos demais dias, e por estar localizada em meio ao coração financeiro da capital, é uma raridade encontrar cidadães residentes do local utilizando a praça em momentos de lazer. É uma questão de funcionalidade. Ratear e torná-la mais acessível, como prevê o projeto, parece ser um dos caminhos mais "democráticos" para a utilização plena da Praça Portugal.

Lamentavelmente, é necessário cortarmos da própria carne. Mas não esqueçamos, também, que Fortaleza paga um preço contraído de décadas e décadas atrás, através do crescimento demográfico e ocupação desordenada da cidade, o não estabelecimento de uma lei de ocupação e uso do solo, que também está atrelada ao não cumprimento de um Plano Diretor, e, em menor grau, dos responsáveis pelo desenho da cidade, que não atentaram à demanda futura. Qualquer gestão que ousasse intervir na mobilidade urbana, sobretudo em regiões como a Aldeota, iria carregar esse abacaxi, o qual Roberto Cláudio está segurando.

Entretanto, é de suma importância destacar que tais intervenções devem vir acompanhadas de planos que priorizem o transporte coletivo, que incentive o cidadão a trocar seu carro pelo ônibus, ou que adote outros meios individuais não-motorizados de locomoção. Tem-se que estancar o crescimento vertiginoso de veículos particulares, que são utilizados de maneira "supérflua" e mesquinha por muita gente. O binário possuirá faixa prioritária para coletivo e ciclofaixas. Somente assim esses ajustes viários, que devem ser pensados a longo prazo, compensarão os eventuais prejuízos ocasionados.

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