domingo, 16 de março de 2014

Um bate papo com os busólogos para descobrir o que move essa paixão por ônibus

Em um encontro informal, procuramos descobrir, com estudiosos e aficionados da Busologia, o que inspira e estimula um número cada vez maior de pessoas a cultivar essa espécie de mania, ou idolatria, ou mesmo apenas atração, por ônibus. Nossos convidados chegaram pontualmente no horário marcado – virtude que os usuários sempre esperam dos ônibus. Chegaram trazendo maquetes de ônibus antigos; a “Revista Ônibus” de janeiro/fevereiro de 2002, que primeiro abordou o tema; a revista “100 Anos de Ônibus”, da Fetranspor, que relatou esse momento histórico; até fichas de plástico coloridas, usadas para pagamento das passagens nos ônibus antigos. E, claro, álbuns de fotografias que mostram a história dos ônibus do Rio de Janeiro e municípios vizinhos, como São João de Meriti, Caxias e São Gonçalo. 

Nesse bando de loucos (por ônibus), Sydney Júnior, 50 anos, publicitário, criador e mantenedor do site ciadeonibus.com; Ricardo Avellar, 47 anos, arquiteto, artista construtor de maquetes de ônibus; Carlos Vinícius Vieira, 50, que dirige, com Ricardo e o irmão dele, Rafael, a RRV, de maquetes e cenários; Fernando Ezídio, 40 anos, desenhista, pesquisador do design dos veículos; Edvaldo Gonçalves, 50 anos, contador, pesquisador, grande admirador da empresa Flores; Marcelo Prazs (Prazeres), 40 anos, jornalista, pesquisador da história do transporte coletivo; Edegar Rios Lopes Filho, 69 anos, que todos os presentes consideram “o Pai dos Busólogos”. 

Onze anos depois 
Ricardo é o primeiro a falar: “Em 2002 saí na ‘Revista Ônibus’por causa das minhas maquetes. Estou feliz por estar aqui 11 anos depois, falando para a mesma revista da Fetranspor, é sinal de que o tema continua vivo”. Vinícius, sócio dele, completa: “A gente tenta resgatar a memória do transporte no Rio, através das maquetes, dos cenários, formando o ambiente em torno dos ônibus para eventos, ou as miniaturas de ônibus em escala, reproduções fiéis”. 

Ricardo intervém: “É, mas a maquete bomba mais na internet, as pessoas veem e dizem – ‘meu Deus, que que é isso?’”. Vinícius arremata: “Mas, não é pra divulgar, pra ter ganho, a gente faz mesmo é pelo prazer... A gente gosta de miniaturas, gosta de carros antigos, vamos a encontros de ônibus antigos em São Paulo, aonde tiver. Nossos compradores, até há pouco tempo, eram empresários do transporte (pra ter miniaturas dos ônibus de suas empresas), mas agora são busólogos, a maioria de 60 anos pra cima. Não é coisa pra criança”. Ricardo emenda: “Muitos querem pra pôr na prateleira; tem muito isso, o cara tem a maquete na estante da sala”. 

Maquetes: réplicas fiéis 
Vinícius é mais quieto; Ricardo se empolga: “A minha intenção é sempre fazer maquetes idênticas aos ônibus que rodavam no Rio, desde os mais antigos – réplica fiel, com número de placa, número de ordem, se tinha identificação da empresa, se tinha a placa colocada sobre a grade, que muitos tinham, apesar de vedar a passagem de ar. E eu coloco a grade assim como era. Procuro ser o mais fiel possível”. Chega o Sydney: “Eu trouxe maquetes, e também trouxe fichas de ônibus”. [Todos se agitam, dão risadas – “essas são do meu tempo!”, “meu também!”]. As fichinhas coloridas parecem exercer sobre eles a mesma atração de quando eram crianças. Por muitos anos, no Rio de Janeiro, quando o passageiro pagava a passagem, recebia fichas com cores diferentes, de acordo com o preço, que, por sua vez, dependia do trajeto e do destino final do cidadão. As fichas tinham sempre a identidade da empresa: Verdun, Viação Bangu, São Silvestre etc. 

Busófilos x Busólogos 
Mas, como é que isso começou? Na “Revista Ônibus” de 2002, na qual o Ricardo é entrevistado, o título é “Busófilos”, mas hoje se diz “Busólogos”. Ricardo e Sydney explicam: “O termo busófilo quer dizer menos do que busólogo, porque seria apenas aquele que admira ônibus; mas o busólogo é o que estuda tudo o que se relaciona com ônibus. É memória, é história, é estudo”. 

Uma constante entre eles é que essa espécie de loucura “do bem” começou na infância. Sydney: “Comigo começou com uns cinco anos. Minha avó me dava fichas coloridas de ônibus, e eu colecionava, colocava num saquinho … Eram da Viação Verdun, do 409, que passava na Lopes Quintas. E aí eu comecei a atentar para o ônibus em si. Na época eu chamava de Verdún (a pronúncia é ‘verdan’). O povo chamava de Verdún. Aí comecei a ver que aquela ficha era daquele ônibus, verdinho e prateado, com uma faixa azul. Comecei a gostar de ônibus, a guardar recortes; tudo isso na infância. Daí, quando você começa a amadurecer um pouco, começa a pensar: ‘pra que esse negócio?’. E foi tudo pro lixo. Papai não deixou, foi tudo pro lixo. Aí, nas décadas de 80, 90, comecei a guardar de novo, recortes, fotos; comecei a fotografar ônibus, ali na Presidente Vargas. Só que eu tinha até medo, porque eu achava que era maluco. Até que conheci o Ricardo Avellar, que já fotografava ônibus”. Ricardo não perde a oportunidade: “Eu também era maluco”. 

Bombando na internet 
Mas tudo se resume em fotografar os ônibus? [Gritaria geral]. Todos: “Não, não!”. Eles explicam que tem sempre um direcionamento, uns preferem conhecer as carrocerias, as cores, as empresas; outros, o motor. “Nós temos amigos que, pelo barulho, conhecem o motor, sabem dizer se é Mercedes...”, completa Ricardo. 

Numa época como a nossa, de culto à tecnologia, é claro que essa verdadeira febre tinha de cair na internet. Sydney, que há cinco anos desenvolve o site ciadeonibus. com, conta: “Eu queria desenvolver um site na minha área de atuação – eu tenho uma agência que contrata crianças e adolescentes para publicidade. E aí, pra criar esse site, eu fui primeiro, pra aprender, criar alguma coisa na internet com algo que não tivesse tanta responsabilidade, que eu pudesse brincar. Ninguém ia ver mesmo. Aí comecei a montar um site de ônibus; peguei um monte de fotos que eu tinha, comecei a separar recortes de revistas e jornais, separando por empresa, e fiz, na época, o Starmedia, aqueles sites de home page grátis”. 

“O pai de todos” 
“Foi aí que chegou o Edegar,que todos aqui consideramos o pai de todos nós, que nos ensinou tudo. Ele é muito solícito, e me forneceu muitas informações, sobretudo fotos. Fiz o site, que ainda não tinha o nome que tem hoje, Ciadeonibus. Era apenas um site sobre ônibus no Starmedia, e coloquei um contadorzinho. Na primeira semana, foram 50 acessos; na segunda semana, 80 visitas; na terceira, 120, caramba! Hoje temos centenas de acessos diários”. 

Chegam mais busólogos: Fernando Ezídio, Edvaldo, Marcelo Prazs e Edegar, o “Pai de todos”. [Eles preparam as maquetes para as fotos]. Sydney: “Este é Andorinha, né? Ah, tu trouxe o Taiobão também!”. 

Por que Taiobão? Era o nome da companhia? Marcelo esclarece: “Não, a companhia era a Bangu”. Uma curiosidade: segundo Sydney, o Taiobão era especial para levar os surfistas com suas pranchas de surf. Era mais aberto, não tinha bancos. Edvaldo acrescenta: “não só isso, ele rodava em Campo Grande, área rural, então trazia galinhas, verduras... O pessoal tinha muita plantação de laranjais, na Zona Oeste...” Interesses diversos Marcelo se mostra ansioso por apresentar sua pesquisa: “Coleciono documentos, os Diários Oficiais, leis e normas. Eu queria esclarecer que ser busólogo não é só conhecer ônibus, é estudar também as empresas, suas linhas, as pinturas – que o Rio de Janeiro tinha as pinturas de ônibus mais bonitas do mundo”. Foram estas características dos busólogos, de ter interesses diversos, que fizeram os sites sobre ônibus atraírem tanta atenção. 

Cada um deles, ao tomar conhecimento do site, viu que não estava sozinho. Sydney conta: “Foi a internet que fez a gente se conhecer. O primeiro site é da década de 90, o Ciadeonibus é de 96, em 2000 já tinha o site Rioônibus, também de interessados em ônibus. Já antes disso, o Edgar me procurava no trabalho e me levava fotos, recortes de jornais; e nós batíamos longos papos”.

4 comentários:

  1. O conhecimento a disposição de todos.....

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  2. Olá. Quero agradecer-lhes pelo espaço a nós concedido. É muito bom sabermos que a busologia vem conquistando seu espaço paulatinamente.
    Só queria fazer algumas correções : Não sou técnico em telefonia, sou contador por profissão. Também sobre o taiobão, na zona oeste era grande o número de plantações de laranjais. E, minhas empresas preferidas são a Viação Acari e Transportes Paranapuan.
    Agradeço-lhes o espaço e desejo vida longa ao Fortalbus.

    Um grande abraço a todos.

    Edvaldo Gonçalves
    Ônibus em Debate

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  3. Olá. Quero agradecer-lhes pelo espaço a nós concedido. É muito bom sabermos que a busologia vem conquistando seu espaço paulatinamente.
    Só queria fazer algumas correções : Não sou técnico em telefonia, sou contador por profissão. Também sobre o taiobão, na zona oeste era grande o número de plantações de laranjais. E, minhas empresas preferidas são a Viação Acari e Transportes Paranapuan.
    Agradeço-lhes o espaço e desejo vida longa ao Fortalbus.

    Um grande abraço a todos.

    Edvaldo Gonçalves
    Ônibus em Debate

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