terça-feira, 1 de abril de 2014

Falta de humanização evidencia crise no transporte

Por Marcelo Filho
Transporte coletivo é sinônimo de mazela. O julgamento vem da fonte motriz, os usuários. Ônibus desconfortáveis, atrasados e a má educação dos profissionais são as principais acusações. Tornou-se um estigma indissociável na sociedade brasileira.

Importante destacar que o transporte, antes de mais nada, é composto por pessoas. Do passageiro, passando pelo motorista, cobrador, colaborador, empresário até o secretário responsável pelo setor. Mas para que o transporte seja de fato eficiente, é preciso humanização. Em tese, se somos humanos, logo somos humanizados. Isso vale para todos os envolvidos, sem exceção.

É uma reação em cadeia. A ganância dos gestores que elaboram os horários, pouco coerente com a realidade em que se encontra a mobilidade nas vias. O estresse do motorista, ao se ver obrigado a cumprir a escala, sob pena de perder a renda da viagem em caso de atraso. A impaciência do usuário ao se deparar com quilômetros de lentidão e ter que encarar possíveis adversidades em seus compromissos.

Como todo bom humano, é despertado uma condição que está intrinsecamente ligado à nossa condição, não que seja de forma voluntária, o egoísmo. Muitos gestores que só pensam no lucro. Motoristas que só querem saber de cumprir viagens, ocasionando as "queimas de paradas", por exemplo. Passageiros que exigem tratamento cordial dos operadores e apenas chegar ao seus destinos, mas não enxergam o suplício rotineiro enfrentado no trânsito. 

Sem falar nos proprietários de veículos individuais, que dia após dia entopem as vias com seus carangos, com ar condicionado, poltronas, som, pouco se lixando para quem está se espremendo dentro do ônibus, quando se poderia buscar outras alternativas para contribuir com a redução dos engarrafamentos. 

Como consequência, insultos, denúncias e, no mais extremo dos casos, socos e pontapés entre operadores e usuários. Os gestores continuam em seus escritórios, tentando abafar uma crise aqui e acolá, diante da posterior repercussão midiática. E tudo continua como está. 

A solução do problema é mais abstrata do que se imagina, e não técnico como se parece. Investimentos existem. Renovação de frota, monitoramento em tempo real, câmeras nos coletivos, bilhetagem eletrônica, entre outras contribuições que a tecnologia pode oferecer. Todo esse aparato constitui uma aparência externa de confiança no transporte. Como o próprio nome diz, "coletivo", a compreensão e o respeito precisam aflorar em cada indivíduo inserido dentro desse sistema, para desfazer a ilusão construída e concretizar a real confiança.

Transporte é humano. São relações que se estabelecem dentro de um ambiente em movimento. Não importa o modal. Cada usuário com seus problemas, suas vitórias, alegrias e tristezas. O que impede que isso seja compartilhado, respeitado, compreendido. Esbarrou em alguém involuntariamente, desculpas. Ceda o lugar para idosos ou pessoas necessitadas. Alguns até arriscam recitar um poema, ou cantar, e até mesmo contar causos. 

A mudança não depende das instituições (secretarias e empresas de transporte). A mudança só depende de nós, usuários. Humanos. Uma reflexão profunda de nossa relação com o semelhante é o caminho. Transporte é cidadania!

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