sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As lembranças dos primeiros ônibus urbanos de Fortaleza

"Vamos afastar um pouquinho, por obséquio"... Era assim que os trocadores dos auto-ônibus pediam aos passageiros que viajavam em pé, no tempo das empresas Pedreira, Iracema, Guedes, Severino, São Francisco. Nem sempre com muita urbanidade eles repetiam o bordão. É verdade que eles balançavam a mão cheia de moedas em direção dos usuários, mas isso já era tão comum que ninguém se abespinhava, uma palavra tão antiga quanto esta história dos ônibus de Fortaleza. Era aquele tipo de transporte que o passageiro puxava um cordão quando queria descer. O cordão, lembram? Acionava uma campainha lá na frente ao lado do motorista.

Naquele tipo de veículo, tempo da empresa do Júlio Mourão, que o chaufeur (motorista daquele tempo) no momento em que engatava a prise, a última marcha, enganchava numa estrovenga (com crédito para o grande Almir Pedreira, que gostava dessa palavra) para que ela não soltasse, prejudicando o andamento do velho Chevrolet ou International, ou, ainda, Dodge, Ford. E o importante era não deixar o carro estancar, porque a bateria estava carregada o que obrigava o motorista descer e acionar a anivela enquanto que o trocador, ainda condutor, herança dos bondes, pisava no acelerador. O ônibus Vovô da empresa Severino, da linha do Bemfica, foi momento de grande sucesso na sua estréia. O motor dele' era dentro do salão, o que aumentava o calor reinante principalmente para o guiador. Em compensação transportava mais passageiros, sendo assim uma espécie de engole fila quando chegava no seu ponto da Praça do Ferreira, ao lado da Coluna da Hora. 

Essas empresas de coletivos funcionavam ao mesmo tempo dos velhos bondes da Ceará Light Tramways and Power. Aqui e acolá eles davam o prego e como as linhas não eram duplas, tinham de esperar num desvio o outro, como na Clarindo de Queiroz com 24 de Maio e Princesa Isabel. Outro dia na Beira Mar, onde ando diariamente, o conhecido e competente advogado Ernando Uchôa Lima lembrava quando subíamos na parte traseira do bonde, retirando a lança que transmitia energia elétrica, forçando a uma paralisação para desespero dos passageiros. E recordei quando colocávamos sabão na linha para que as rodas do bicho (sic) deslizassem. 

Mas elegantes, modernos mesmo eram os ônibus da Empresa São Jorge, dos Otoch. Inauguraram em Fortaleza a era dos circulares fazendo interligação entre bairros e lançando as portas automáticas e as campainhas elétricas. Tinha quem viajasse nesses transportes coletivos pelo simples prazer, de apertar nas campainhas e esperar que a porta fosse aberta pelo motorista com um pequeno apertar de botão. E os carros da São Jorge trocavam dinheiro por fichas plásticas, as quais eram colocadas na urna ao lado do motorista, no momento da descida. 

E todos se deslocavam para o Centro da cidade ou para os bairros, utilizando o transporte coletivo, num tempo em que os carros, particulares eram difíceis; sem vendas a prestação e os de corrida, hoje táxis, como os Packards do posto Mazine, eram para os mais abonados.
Fonte: O Estado

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