sábado, 31 de maio de 2014

Editorial: A faca que cortou a todos nós

Por Fortalbus
Infelizmente, temos de publicar fatos relacionados à insegurança no transporte coletivo para alertar os usuários, operadores e órgãos responsáveis que o perigo está cada vez mais próximo. Os alvos foram escolhidos na noite da última quarta-feira (28), onde Francisco Erivaldo Matias Marinho e Francisco Valderir Carneiro, motorista e cobrador, respectivamente, da linha Parque Santa Maria/Siqueira, foram covardemente atacados à faca, por dois menores de idade e um adulto, durante um assalto no interior do coletivo em que trabalhavam. 

Foto: Edimar Soares (O Povo)
Por ironia ou mera - mas tenebrosa - coincidência, no dia anterior, outros dois profissionais da categoria também foram agredidos da mesma maneira por meliantes que os abordaram no veículo que fazia a linha Álvaro Weyne/Centro. Por sorte, ambos passam bem. O Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário, SINTRO, tomou as dores dos seus companheiros e promoveram paralisações, à exemplo de outros casos, com o objetivo de externar todo o medo e a indignação de uma classe que está trabalhando no limite. 

Os ataques aconteceram em um intervalo de 24 horas. Valderir poderá perder os movimentos de suas pernas e Matias terminou falecendo na manhã de quinta. Foi o necessário para que explodisse a revolta de toda uma categoria que possui bastante representatividade e que demonstrou possuir um espírito de coletividade nunca antes vista em campanhas anteriores na história recente. 

Matias tornou-se símbolo. Não um símbolo como queríamos, por reconhecimento de seu ofício em vida, mas o de representar a apreensão, a incerteza e uma imensurável dor que todos os seus colegas estão sentindo. E não fica restringido somente aos colegas. Nós, usuários, estamos tão sujeitos quanto e devemos nos mostrar solidários e compreender a situação em que os profissionais em transporte estão passando. Sentimos o corte na pele também.

Os algozes, pasmem, possuem 13 anos. Foram capturados. Outro adulto também participou do assassinato, porém, até o momento, não foi capturado. As crianças divergem em seus depoimentos ao delegado responsável pelo caso. Mesmo que não haja exatidão sobre quem desferiu os golpes em Matias e Valderir, a participação destes menores no crime deixou toda a sociedade mais perplexa ainda. 

Sabe-se que as crianças são moradoras de rua. Informações iniciais dão conta de que foram aliciadas pelo adulto a praticarem o assalto. Uma delas encarregou-se de providenciar o armamento. Não caberia discutir neste editorial o porquê das facadas, visto que ainda não há uma certeza de quem o fez e que nem motorista, nem cobrador reagiram. Inclusive, de acordo com testemunhas, Matias implorou para não ser morto. Não teve chance de se defender.

Da mesma maneira em que não é possível afirmar alguns pontos, fica difícil direcionar a parcela de responsabilidade dos envolvidos neste caso. Entretanto, nos parece evidente que a educação e inculcação de valores pela Família e a instrução do Estado à criança, são indispensáveis para a sua formação cidadã. Havendo desvios neste raciocínio, como o fato de uma das crianças ser órfã e desprovida do seio familiar, a responsabilidade deveria, teoricamente, ser do Estado, que deveria acolhê-la.

Não precisamos citar sobre a sensação de insegurança que temos ao andar por Fortaleza e Região Metropolitana. As blitzes nos coletivos somente são realizadas no calor da emoção - o que se tornará presente mais uma vez -, mas quando a poeira baixa, volta tudo como era antes. Câmeras de segurança, cofres, monitoramento GPS integrado ao Ciops, bilhetagem eletrônica, não adiantam mais. São importantes, mas não impedem. Não é só o caixa do ônibus que carrega quantia de valor (mesmo que irrisório, o limite é de 50 reais). Os passageiros também carregam os seus pertences, que se tornam atrativos aos delinquentes.

A omissão das partes envolvidas no processo de formação de uma criança matou Francisco Matias e sequelou Francisco Valderir. É verdade que o fato em si nos causa tamanha indignação e sede de vingança. Mas, se todos perderem o controle da razão, seremos comparados à bichos na selva. Somos evoluídos e devemos mostrar o exemplo. O mais adequado a se fazer vem sendo clamado desde os últimos tempos, a reformulação, o cumprimento e a moralização das leis. É unanimidade a aceitação da máxima "Quem planta, colhe". Aplicado ao direito, a colheita deveria vir em forma de reclusão com vistas à disciplinação e readequação de um indivíduo ao convívio social, desde que não ultrapasse os limites da integridade física e moral.


O Fortalbus solidariza-se e partilha da mesma dor de toda a categoria de motoristas e cobradores do Sistema de Transporte Integrado de Fortaleza. Registramos nossas condolências à família de Francisco Matias e a nossa torcida pela recuperação de Francisco Valderir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Fortalbus se reserva no direito de selecionar os comentários.

© 2010-2016. Fortalbus Busólogos - Todos os direitos reservados