domingo, 11 de maio de 2014

Fortaleza: Usuários enfrentam lotação, insegurança e atrasos em coletivos

Por Germano Ribeiro
Sair de casa para ir ao trabalho é um desafio para quem precisa se deslocar de transporte público pelas ruas de Fortaleza e da Região Metropolitana. Se por um lado o uso de coletivos é apontado como uma solução para a mobilidade urbana, por outro, ainda há muito a ser feito para possibilitar uma viagem rápida, confortável e segura para os usuários. Apesar das intervenções atualmente em curso, o cidadão é cético com relação a melhoras significativas no curto prazo.

Seja se deslocando de ônibus, transporte complementar (van) ou trem, as reclamações são praticamente as mesmas, ainda que cada modal tenha problemas característicos. A reportagem fez o trajeto em cada um destes meios de transporte para conhecer de perto a situação e desafios enfrentados pelos usuários. A superlotação, o medo de assaltos, atrasos e a falta de paradas com cobertura para proteger do sol e da chuva são as principais reclamações de quem precisa utilizar ônibus e vans na Capital. Nos trens, além do excesso de passageiros, a mudança da estação no Centro também incomodou.

Incômodo
Por volta das 5h30, o pedreiro Jorgenei da Silva já aguardava o ônibus em frente a um shopping em Maracanaú, rotina que se repete "faz anos". O transporte chegou ao local dez minutos depois, já lotado. Mas não há outra opção para o profissional. Ele precisa entrar no trabalho às 7h e não pode perder tempo. 

"Às vezes, a gente atrasa mas o chefe não diz nada porque sabe onde a gente mora", explica Jorgenei, que ainda precisa pegar um outro coletivo para até a Av. Washington Soares, onde trabalha. Com relação às condições do transporte, ele é claro. "O transporte é um aperreio danado. Aqui é lotado e lá no outro, também. Vou em pé o tempo todo", reclamou. 

A situação também incomoda o auxiliar de nutrição Edmilson Martins, que utiliza a mesma linha, Novo Maracanaú, há 27 anos. "O que mais marca a viagem é a lotação. Sempre fica cheio demais", afirma. Insegurança é outro ponto que preocupa. "O problema é só a superlotação mesmo e a falta de segurança. Eu já fui assaltado dentro de um ônibus lotado", disse. 

Mesmo com os problemas, o clima no ônibus é amigável. "Aqui, é todo mundo colega, porque a grande maioria sempre pega o mesmo ônibus", explicou Edmilson. Ele sugeriu ainda a instalação de ar condicionado. "Seria melhor, porque é uma viagem de uma hora", disse. 

Lentidão 
O trajeto de 23 Km até o Centro da Capital, ponto final da linha levou uma hora e cinco minutos, o que representa uma velocidade média de 21,2 Km/h. "O meu maior desafio é o trânsito. Você precisa saber lidar com ele, porque você passa praticamente o dia parado" explica o motorista da linha Evandro Sousa. 

Apesar da lentidão na ida ao trabalho, os passageiros asseguram que a volta para casa é muito pior. "À noite, a gente sai do Centro às 18h15, pega um ônibus lotado e chega às 20h30. É um absurdo", desabafa a técnica de patologia clínica Geralda Nunes. Ela reclama ainda das condições dos pontos de ônibus. "Não tem estrutura nas paradas de ônibus. Se estiver chovendo, a gente fica molhado. Não tem uma cobertura", completou. 

Topiques 
A situação dos usuários de transportes complementares (vans e topics) não é diferente. A linha 03 (Paupina/Pici) é a maior de Fortaleza, com 26 Km de extensão. Antes das 6h, os veículos já estão cheios. "Se tivesse mais espaço, eles levavam mais ainda", afirma o pintor Raimundo Nonato Filho. "Acho que um dia eles vão tirar as cadeiras e vai ficar todo mundo em pé", brinca. 

Apesar de haver 20 carros fazendo a linha, os transportes costumam atrasar, segundo os passageiros. "A gente passa mais de meia hora esperando. De manhã até que é bom, mas de tarde, Deus me livre", desabafa a doméstica Francinete Costa, que faz todos os dias o mesmo trajeto até a Aldeota. A situação não é menos difícil para quem presta o serviço. "Se você para e mais gente sobe, os passageiros reclamam. Se não para por não ter mais espaço, eles ligam para a empresa e reclamam do mesmo jeito", explicou a cobradora Ana Lúcia Queiroz. O motorista João Bosco complementa: "como motorista profissional, a gente sabe quando dá e quando não dá para colocar mais alguém". 

A van chegou às 6h53 no Pici, um minuto antes do previsto, fato raro, segundo João Bosco. Para ele, o maior problema também é o trânsito. "Eu que dirijo todos os dias vejo a quantidade de carros aumentando nas ruas e não está se tomando nenhuma providência", afirmou. 

Horário 
Já o trem da Linha Oeste do Metrô de Fortaleza, que liga Caucaia ao Centro da Capital num trajeto de 19 Km, oferece mais vantagens aos usuários, seja pelo cumprimento do horário, o ar condicionado e a presença de um segurança em cada vagão. O problema, mais uma vez, é a lotação. Outro motivo de insatisfação se dá na hora do embarque, quando muitos passageiros se aglomeram para conseguir um assento no transporte. 

"As pessoas não respeitam a entrada. Eu já tomei uma queda por causa disso", afirmou a desempregada Magdala Aguiar enquanto mostrava cicatrizes na perna esquerda. Com o fechamento da Estação João Felipe, o ponto final da linha passou a ser na Rua Padre Mororó, o que obriga os passageiros a caminharem cerca de um quilômetro até a Praça da Estação. Além da distância, a estrutura improvisada também não agradou. 

Sistema metroviário 
A Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor), informou que a Linha Oeste transporta uma média de 13 mil passageiros por dia. Contudo, o número deverá aumentar quando o sistema ferroviário for transformado num metroviário, com intervalos de cinco minutos entre cada saída (em vez dos 45 atuais) e em trens mais modernos e rápidos. Segundo a companhia, este é um investimento do R$ 1,2 bilhões com recursos do governo federal. 

O Metrofor informou ainda que a Linha Sul, que liga o município de Pacatuba ao Centro de Fortaleza está previsto para começar a operar comercialmente em junho, mas ainda não tem os horários definidos. Além disso, quando as linhas Oeste, Leste e Sul estiverem em pleno funcionamento e integradas entre si e com os ônibus municipais, a expectativa é que todo o sistema atenda uma média de 350 mil passageiros por dia. 

Demanda 
Já com relação aos transportes rodoviários, a Empresa de Transporte Público de Fortaleza (Etufor) informou que são contabilizadas diariamente 1,1 milhão de passagens na Capital, divididas numa frota de 1.800 ônibus e 320 vans, número considerado ideal para atender a demanda. "O que é necessário para melhorar a qualidade do serviço é priorizar o transporte coletivo, medida que está sendo adotada pela Prefeitura de Fortaleza com a construção dos corredores exclusivos para ônibus", explicou a empresa, em nota. 

Com relação às ações para melhorar o transporte público, o órgão ressaltou a implantação do Bilhete Único e a integração entre ônibus e o transporte complementar. A Etufor afirma ainda que será feita uma readequação das linhas, priorizando a presença de vans nos bairros, para que elas alimentem os terminais e os corredores os corredores exclusivos para ônibus, ainda em implantação. 

Já sobre os pontos de ônibus, a Prefeitura informou que existem 4.914 paradas em Fortaleza, sendo 1.252 com abrigos. Segundo a empresa, há um plano para implantar dez novos abrigos por mês na Capital. 

Falta planejamento para a Capital, dizem especialistas 
Ao analisar a situação do transporte público e da mobilidade urbana em Fortaleza, especialistas de áreas técnicas e jurídicas afirmam que falta um planejamento eficaz. Mesmo as intervenções atualmente em andamento podem não ser suficientes para resolver a questão. 

Para o professor do Departamento de Engenharia de Transporte da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em Engenharia de Trânsito Mário Azevedo, o transporte coletivo deve ser priorizado. "Quando você dá uma solução para o automóvel, a vida dela é muito curta. O problema do transporte público é uma falta de prioridade para ele", afirmou. 

De acordo com ele, abrir mais vias não é uma solução, "porque se o espaço dobrar, dobra o número de carros em pouco tempo. Em qualquer lugar do mundo, é isso o que acontece". 

O especialista defende ainda que é preciso mudar a cultura da população. "O carro tem status, é confortável, mas é preciso equilibrar essas coisas e perceber que o espaço da cidade pertence a todos", pondera. 

Contudo, Azevedo é claro ao considerar a causa do problema. "O que falta na cidade é planejamento, de uma maneira geral e dos sistemas de transporte. Medidas paliativas chamam a atenção, mas não resolvem" completou. Sobre as obras de mobilidade em curso, o doutor é cético. "São teoricamente boas, mas podem ser a solução certa para os problemas errados se não forem planejadas", finalizou. 

Rodízio 
O promotor de Justiça Gilvan Melo, coordenador do Núcleo de Atuação Especial de Controle, Fiscalização e Acompanhamento de Políticas de Trânsito (Naetran), concorda. "O problema do trânsito em Fortaleza todo mundo sabe qual é. Nós não temos planejamento", afirma. 

Segundo o promotor, a Capital precisa limitar a circulação de carros. "O rodízio em Fortaleza, quer queira, quer não, é uma questão de tempo", disse. "Um ônibus transporta cinco passageiros por metro quadrado, de acordo com os fabricantes e a ABNT. E um automóvel transporta um passageiro em torno de oito metros quadrados. Então, se deve restringir a circulação de automóveis", defende. 

Gilvan Melo ressaltou ainda que a Lei Federal 12.587/12, que institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, determina no parágrafo 4º do artigo 24 que os municípios têm janeiro de 2015 para elaborar um plano de mobilidade. Caso contrário, ficam impedidos de receber recursos federais destinados à mobilidade urbana. 

Segundo a Prefeitura de Fortaleza, as ações para o setor estão sendo executadas através do Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito de Fortaleza (Paitt). Com relação à implantação de um rodízio de veículos na Capital, a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), disse não ter informações sobre o assunto. 

Violência atinge usuários de coletivos 
Além dos problemas do transporte público e da mobilidade em Fortaleza, a escalada da violência na Capital também afeta os usuários dos coletivos. A antropóloga e pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) e professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jania Diógenes Aquino, vê a situação de insegurança como um desafio que o Estado deve enfrentar.  

A especialista lembrou de casos mais graves, como os dos ônibus incendiados em fevereiro em Fortaleza e Caucaia. Um deles como protesto contra a morte de um morador da Maraponga e os outros ligados a traficantes, que teriam agido em resposta à execução de um chefe do tráfico numa penitenciária. 

"Sejam tais eventos protestos populares contra a violência policial ou ações de coletivos criminais contra o Estado (à semelhança do que faz o Primeiro Comando da Capital - o PCC - em São Paulo), são necessárias providências", afirmou a pesquisadora. Para Jania Aquino, "os principais prejudicados destas ocorrências são os que dependem do transporte público para se deslocar na cidade". 

Serviço precário 
Segundo a antropóloga, a má prestação do serviço de transporte também contribui para o aumento dos riscos. "Em Fortaleza, os usuários de ônibus pagam altas tarifas por serviços precários. São veículos sem conforto, que ultrapassam a capacidade-limite de passageiros em certos trajetos ou horários, não conseguem manter pontualidade e são altamente vulneráveis a assaltos". 

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