segunda-feira, 19 de maio de 2014

Fortaleza: Os verdadeiros destinatários dos corredores preferenciais de transporte

Por Marcelo Filho
Ideia surgida na cidade do Rio de Janeiro, em 2011, os corredores BRS (que, na sigla em inglês, significa Bus Rapid System - Sistema Rápido por Ônibus) tem como objetivo proporcionar maior velocidade operacional de coletivos sem demandar onerosos custos e tempo para a sua implantação. Pode possuir uma ou duas faixas delimitadas por uma faixa azul à direita da via, separando-se dos demais veículos. Também conta com paradas distribuídas em grupos de linhas. Tais linhas são identificadas com um número no para-brisa do ônibus, devendo realizar embarque e desembarque apenas nos locais identificados com a mesma numeração. 

Além do transporte coletivo por ônibus, táxis com passageiros também podem utilizar os corredores. Veículos particulares podem adentrar ao corredor somente para conversões à direita em ruas, residências, ou estabelecimentos comerciais. Não é permitido estacionar dentro das faixas ou percorrer além da distância estabelecida (geralmente, 100 metros), sob o risco de penalização pela fiscalização eletrônica.

Em Fortaleza, a mesma ideia foi aplicada em agosto de 2012, na Avenida Bezerra de Menezes. Em setembro do mesmo ano, foi a vez de trechos das Avenidas Tristão Gonçalves, Imperador e Duque de Caxias, além de trechos das ruas Padre Ibiapina, Pedro Pereira, Padre Mororó e Castro e Silva receberem o BRS-FOR. O projeto seguiu a experiência do BRS fluminense, mas a implantação da fiscalização eletrônica aconteceu apenas no início deste ano, somente na Bezerra.

Importante frisar que tais corredores configuram-se como preferenciais, e não exclusivos - aliás, esta última definição já foi assumida pela Prefeitura de Fortaleza como equivocada. É bem verdade que a velocidade média dos coletivos aumentou significativamente nas vias beneficiadas com o projeto (de 12 para 24 km/h, segundo dados oficiais). Entretanto, ainda existem obstáculos que impedem um verdadeiro êxito da funcionalidade destas faixas.

Um desses obstáculos são os táxis. Explico o por quê.

Mesmo que seja entendido como transporte coletivo, visto que os permissionários operam mediante concessão outorgada pelo poder público, os táxis não possuem a mesma "filosofia" que carrega o transporte de massa, como os ônibus e vans, por exemplo. O modal não é acessível, financeiramente, para todos, sem contar nos períodos de reajustes nas bandeiras. Os preços cobrados são demasiadamente elevados. É um luxo que poucos possuem. A lógica é a mesma de quem possui, ou pretende adquirir, veículos particulares: oferecer uma opção de deslocamento ao passageiro sem precisar se submeter ao estresse, sufoco e os eventuais atrasos dos coletivos.

Os táxis estão autorizados a trafegarem pelo BRS-FOR quando houver passageiros à bordo. De início, os motoristas deveriam deixar as janelas abertas para facilitar a identificação de usuários no interior do veículo através das câmeras de fiscalização. Não se sabe do real cumprimento desta norma após a instalação dos equipamentos.

Além do mais, em um táxi (e como em todo carro de passeio) cabem quatro ou cinco passageiros, no máximo. Enquanto que em um ônibus essa capacidade aumenta, pelo menos, 15 vezes mais, e nas vans do transporte alternativo 7 vezes. Nos dias atuais, o discurso da prioridade do transporte coletivo em detrimento do individual (por meio de corredores), onde uma maioria deveria ter mais direitos sobre uma minoria dotada de privilégios (dicotomia ônibus versus carros), está posto em voga. Então, por que permitir que um veículo que transporte uma quantidade bastante inferior de passageiros também possa trafegar em faixas preferenciais?

Um agravante: é comum encontrar taxistas que transformam paradas de ônibus do BRS em pontos fixos. É fácil constatar esse total desrespeito no Beco da Poeira, localizado na Avenida do Imperador, e no North Shopping, situado na Bezerra de Menezes. A ausência da noção de coletividade e irresponsabilidade destes permissionários acabam por ocasionar engarrafamentos e atrasos nos coletivos que precisam fazer embarque e desembarque nestes locais, o que é inaceitável em um equipamento que propõe justamente o contrário.

Portanto, o transporte de massa deve ser encarado como o verdadeiro destinatário da implantação de corredores preferenciais ou exclusivos. Já não basta a má educação de outros motoristas, seja de veículos particulares ou do próprio sistema de transporte, que acabam prejudicando a eficiência dos equipamentos. Destaco que não se trata de um discurso desfavorável aos táxis, que é um serviço imprescindível à população. Mas, sim, de uma questão de rever as reais necessidades para que sejam estabelecidas as corretas prioridades.

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