domingo, 27 de julho de 2014

Fortaleza: Uma questão de equilíbrio com os ônibus "boiadeiros"

Elizabeth Rebouças era uma observadora de Fortaleza e, certamente, andava de ônibus em 1976. De vez em quando, ela escrevia as suas impressões sobre os ônibus de Fortaleza, um dos mais comentados sempre era noticiando os flagrantes da vida de passageiros.

O excesso de lotação nos ônibus era caso difícil de resolver e já tinha tomado as páginas dos jornais, com a mesma ladainha de reclamações. Mas, naquele ano, Elizabeth apareceu na redação com uma novidade que prometia acabar com a monotonia: a chegada dos ônibus “boiadeiros” na cidade.
Interior de um carro "boiadeiro" da Viação Bons Amigos (O Povo)
O modelo já vinha de fábrica, mas podia ser facilmente adaptado em qualquer carro nas oficinas das empresas. Bastava trocar a fileira de bancos dois-a-dois por duas linhas de bancos laterais, uma de frente para a outra, ao longo do corredor. Aumentava o espaço para quem viajava em pé.

Elizabeth não gostou nadinha dos ônibus boiadeiros. Logo de cara achou que eles pareciam vagões de trens cargueiros, que levavam gente como se levam gado. Daí o nome “boiadeiro”, muito apropriado para o caso. Isso sem falar no constrangimento de se ficar sentado, encarando desconhecidos durante a viagem inteira, como numa verdadeira sala de estar móvel. Essa situação fez o ônibus ganhar mais um apelido na picardia popular. “ônibus cara-a-cara”.

Para quem seguia em pé, era difícil de se equilibrar. Sem os encostos dos bancos convencionais, só restava se pendurar nas barras do teto – uma proeza impensável para os baixinhos. Como os buracos das ruas de Fortaleza faziam os ônibus balançar muito, parecia que todo mundo ficava dançando quadrilha, se segurando nos outros para não cair. Contudo, o inconveniente maior, segundo apurou Elizabeth, era que o pessoal sentado corria o serio risco de ser pisado na hora do ruge-ruge. O jeito era encolher o pé para baixo do banco.

As opiniões sobre os ônibus boiadeiros divergiam muito na sociedade fortalezense. Segundo Elizabeth, uma das principais incentivadoras da idéia era a rapaziada do forró, porque podia improvisar um baile ali mesmo, no corredor. Outra classe beneficiada era a dos farmacêuticos, porque sua clientela aumentara com a chegada dos boiadeiros. Tratavam muitos tornozelos inflamados, torcicolos, hematomas e unhas do pé caídas.

Tudo valia a pena, desde que se chegasse mais cedo em casa. Como notou o Seu Ivan, gerente de uma das empresas de ônibus, tanto fazia levar 60 pessoas em pé, como levar 80. Se o carro ficasse lotado o suficiente, os corpos das pessoas podiam formar uma massa compacta, protegida dos sacolejos do caminho.

Os boiadeiros não vingaram quase nada. Elizabeth descobriu que as empresas estavam encomendando ônibus com os bancos tradicionais já em 1976. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Fortalbus se reserva no direito de selecionar os comentários.

© 2010-2016. Fortalbus Busólogos - Todos os direitos reservados