segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Segmento de ônibus rodoviário inicia reação

Nos últimos seis anos, a possibilidade de licitação do transporte rodoviário interestadual foi um verdadeiro fantasma não apenas para as operadoras do serviço, mas também para as montadoras de ônibus, que têm nesse mercado um de seus grandes filões. Sem a garantia de que continuariam com as linhas, as empresas de viação não se sentiam seguras para investir na frota, esvaziando cada vez mais as carteiras de pedidos dos fabricantes desses veículos e suas encarroçadoras.

Há um mês, contudo, o governo derrubou o processo de licitação das linhas interestaduais. Após sucessivos revezes, o imbróglio vinha se arrastando desde 2008, quando as empresas passaram a operar com licenças de caráter provisório após o vencimento de licenças concedidas 15 anos antes.

A exemplo do que já acontece na aviação civil, o serviço passa a se dar sob o sistema de autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), num modelo mais alinhado com os interesses das operadoras de transporte coletivo - antes preocupadas com a redução nas taxas de retorno do negócio em processos licitatórios que poderiam limitar as tarifas.

Resolvida a questão, as montadoras veem agora a chance de faturar com a volta de investimentos represados nos últimos anos. Na indústria, calcula-se entre 8 mil e 10 mil ônibus o potencial de renovação nas frotas dessas companhias nos próximos cinco anos.

Segundo Ciro Pastore, executivo responsável pelas vendas de chassis rodoviários da Scania, isso significa sair de um mercado que vinha rondando a casa de 5 mil veículos - na média anual dos últimos quatro anos - para algo superior a 7 mil unidades.

Em volume, o segmento rodoviário não é o maior dentro do mercado de veículos coletivos. Sua participação, de 15%, fica atrás das linhas de ônibus urbanos (40%) e de transporte escolar (30%). Mas essa é a categoria que traz maior nível de equipamentos e tecnologia agregada, onde, portanto, pratica-se preços mais altos do que nas demais linhas. Por conta das indefinições que vinham, até então, atrasando os investimentos das companhias de viação, as vendas desses ônibus recuam cerca de 26% neste ano, acima da média de toda a indústria, que cai quase 14%.

Estima-se que a ANTT levará entre seis meses e um ano para regulamentar o sistema de autorização das operadoras, estabelecendo, por exemplo, padrões de qualidade do serviço e especificações técnicas dos veículos. A partir de então, o impacto nas encomendas de ônibus deve ser maior, avaliam executivos de montadoras. "Hoje, temos a segurança jurídica, mas o movimento do empresariado depende dessas outras etapas. Sabemos que o processo [de regulamentação] não deve ser rápido", afirma Pastore, da Scania.

Mas alguns dirigentes da indústria dizem que o fim da exigência de licitação deve melhorar as vendas já a partir deste ano. "O mercado já se mostra mais comprador", diz Walter Barbosa, diretor de vendas da divisão de ônibus da Mercedes-Benz, relatando também um aumento nas consultas das operadoras de transporte rodoviário nas últimas semanas.

Paulo Porto, presidente da Abrati - entidade das empresas de transporte que apoiou a emenda que deu fim ao processo de licitação -, diz que suas associadas devem fechar 2014 com cerca de 1,5 mil veículos comprados. Segundo ele, as empresas já estão se antecipando à regulamentação e fecham novos pedidos para ampliar e reduzir a idade média da frota, que passa hoje de nove anos. "A notícia já está animando o setor", afirma.

Para Barbosa, da Mercedes, o mercado de ônibus rodoviários deve ser mais aquecido no segundo semestre. Mas, por outro lado, as incertezas provocadas pelas eleições devem frear a demanda das operadoras de transporte público urbano. "Vamos ter um rodoviário mais forte e um urbano, menor. Não sei se um consegue compensar o outro", prevê o executivo.

Somando as demais linhas, as vendas de ônibus no Brasil totalizaram 13,4 mil unidades no primeiro semestre, 13,7% abaixo de um ano antes, conforme a Anfavea, entidade das montadoras. O desempenho foi prejudicado pela redução nas compras de ônibus escolares do governo federal.

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