sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Maior linha de ônibus do Brasil vai do Rio Grande do Sul ao Ceará em cinco dias

"Vou com vocês até Vitória da Conquista, na Bahia. São seis horas de viagem", anuncia o motorista, atravessando o corredor do ônibus. Ele é um dos 11 no revezamento do volante.

A reportagem percorreu 4.530 km na maior linha de ônibus em funcionamento no Brasil, segundo a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). A reportagem relata nesta edição como é o trajeto –feito pela empresa Nossa Senhora da Penha há mais de 30 anos– e quem são os passageiros que entram e saem durante o percurso.

A viagem começou na noite de quinta-feira em Pelotas (RS) e terminou em Fortaleza (CE), quase 80 horas depois.

Passa das 16h30 de sábado e o ônibus está parado na rodoviária de Teófilo Otoni (MG), o que significa que mais da metade do caminho ficou para trás.

Numa poltrona na janela, uma das mãos de Antônio Cruz segura a imagem de uma santa de gesso com cerca de um metro de altura, da qual ele não desgrudou desde o seu embarque, em Curitiba (PR).

É por causa dela que o aposentado, 74, escolheu o ônibus para ir a Fortaleza.

"Já viajei de avião uma vez", Antônio conta. "Mas minha Nossa Senhora de Fátima tinha que vir comigo, ia ser complicado".

Com a outra mão, ele segura uma pasta de documentos. A certidão registra Quixeramobim, no sertão cearense, como o local de nascimento. É para lá que ele vai, visitar a família. "Em Fortaleza, pego mais um ônibus para chegar."

São poucos os passageiros que viajam do início ao fim.

Viagem é aula sobre biomas brasileiros
Do Sul ao Nordeste, a paisagem emoldurada pela janela do ônibus na linha rodoviária mais longa do país muda lentamente. É como assistir a uma aula prática sobre os biomas brasileiros, dos pampas e da mata atlântica ao cerrado e à caatinga.

Os 13°C marcados pelo termômetro na rodoviária de Pelotas (RS) sobem lentamente e, quando a BR-116 atravessa uma série de cidades mineiras pequenas e parecidas, como São João do Manhuaçu e Santa Rita de Minas, um mostrador dentro do ônibus informa que a temperatura externa está na casa dos 31°C.

Por causa do ar-condicionado no interior do veículo, os passageiros só sentem o calor nas breves paradas de 30 minutos que, em geral, ocorrem a cada três horas.

Durante a parada para o almoço de sábado, em Governador Valadares (MG), Irandir Barbosa de Moura, 64, conta que pegou a linha em Itajaí (SC) para descer em Icó (CE). Depois, seguirá para sua cidade, Lavras de Mangabeira, a 70 km da parada do ônibus.

Viajando com a mulher, a professora Elza Barbosa de Moura, 60, o pedreiro retorna de uma visita de quase um mês aos seis filhos, que moram na cidade catarinense. "O ônibus é muito cansativo", diz. "Prefiro avião, mas minha mulher tem medo."

O medo de voar, aliás, é, ao lado de questões como a ausência de limite de bagagem e a possibilidade de viajar de graça, um dos motivos que explicam por que há quem prefira passar dias na estrada, em vez de horas no ar.

Do ponto de vista financeiro, o avião é mais vantajoso. Com três semanas de antecedência, é possível comprar, por exemplo, uma passagem de Navegantes (SC), a 3 km de Itajaí, a Juazeiro do Norte (CE), onde está o aeroporto mais próximo de Icó, por R$ 521. São seis horas de voo. A passagem de ônibus de Itajaí a Icó custa R$ 566,30. E quase 60 horas de estrada.

Passageiro Especial
No caso da aposentada Raimunda Sousa Régis, 60, o ônibus foi escolhido porque ela tem a Carteira do Idoso, que dá descontos ou gratuidade no transporte coletivo interestadual a quem tem 60 anos ou mais e renda inferior a dois salários mínimos.

Em cada veículo, são reservadas duas vagas para quem tem o benefício e, nesta viagem, Raimunda é uma delas.

Nascida em Petrolina (PE), ela mora em Curitiba (PR) há 40 anos e espera encontrar uma grande festa quando desembarcar em sua cidade natal. "Faz 24 anos que não volto pra lá", diz. "A família inteira está me esperando."

O casal Fernanda, 42, e José Schwartzhaupt, 41, mora em em Alvorada (RS) e tem o Passe Livre, benefício do governo federal que dá direito à gratuidade em ônibus interestaduais para portadores de deficiência que tenham renda familiar per capita de até um salário mínimo mensal (ele não tem uma perna e ela tem restrição de mobilidade de um lado do corpo).

Com pouco tempo de férias, o passeio será bem curto. Planejam ficar só três dias em Fortaleza e voltar. "Estamos passando a maior parte das férias dentro do ônibus", afirma José.

Pelotas-Fortaleza saídas às quintas, às 20h
Previsão de chegada domingo, às 23h
Quanto R$ 742,15

Fortaleza-Pelotas saídas às sextas, às 8h
Previsão de chegada segunda-feira, às 13h25
Quanto R$ 791,42
Fonte: Folha de São Paulo

Um comentário:

  1. Já fiz este trajeto ida e volta em 1999 nos ônibus verde da Penha, quando era da Itapemirim, a ida foi no tribus II e a volta no tribus III de Pelotas até Barreiras-BA, onde trocamos de ônibus por um de dois eixos com suspensão de feixe de molas até Fortaleza.

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