quarta-feira, 9 de março de 2016

Ônibus monoblocos da Mercedes-Benz fizeram história nas estradas do Brasil

Produzidos de 1958 à 1996, os ônibus monoblocos da Mercedes-Benz marcaram o desenvolvimento do transporte no Brasil. A robustez da estrutura unificada (carroceria e chassi), mais leve e aerodinâmica, o rodar macio do motor traseiro e o conforto superior aos dos ônibus brasileiros de até então, fizeram dos modelos um sucesso de vendas, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970. Popularidade associada à ampla assistência técnica da marca da estrela de três pontas, presente em todo o território nacional. Um autêntico Fusca dos ônibus. 

A série marcou o que a Mercedes-Benz diz ser a fabricação do primeiro ônibus 100% nacional – o O 321, lançado em 1958. Entretanto, anos antes (1946-1947) a General Motors já montava unidades integrais nos moldes de modelos vendidos nos Estados Unidos na fábrica de São Caetano do Sul (SP). Até as duas décadas que antecederam o governo de Juscelino Kubitschek, a produção brasileira de ônibus era basicamente artesanal. Pequenas encarroçadoras montavam coletivos na maioria das vezes de carroceria de madeira, em chassis de origem importada como Ford, GM. Somente na década de 1970 os chassis para ônibus, meio mais utilizado atualmente pela indústria, começaram a ganhar dimensão no mercado. 

O desenvolvimento dos monoblocos brasileiros levava em conta as características de uso e necessidades locais. Os modelos que deixaram a linha de montagem da fábrica de São Bernardo do Campo (SP) eram projetos locais, inexistentes na matriz da Mercedes-Benz na Alemanha. Um dos monoblocos mais marcantes da série foi o O 362. Disponível nas configurações urbana e rodoviária, foi produzido de 1973 a 1978 e trouxe como inovação o primeiro motor turbo de fábrica em um ônibus nacional. Denominado OM 352, o motor produzia 130cv (cavalos) de potência. Força suficiente para os padrões de curta distância e uso urbano da época, ante os 200cv do OM 355 que equipava o O 355, opção de monobloco mais potente e maior no comprimento (40 lugares padrão, ante 36 lugares no O 362), recorrente em viagens longas.

O assobio do motor tornou o O-362 inconfundível. Em São Paulo, foi muito utilizado pela extinta Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC), onde chegou a ter mais de 2 mil unidades em circulação na configuração urbana. Além de ter sido exportado para mercados como o Chile, ainda sendo muito cultuado por lá.

Foi justamente na capital paulista que dois empresários mineiros, pai e filho, encontraram uma unidade do O-362 em perfeito estado de conservação. O busão prateado, ano 1977, pertencia à Manzi, extinta empresa de transporte de pessoal do bairro da Penha (Região Leste de São Paulo) que atendia a farmacêutica Aché. Depois de algumas visitas e muito conversa com o antigo proprietário, Jefferson Henrique dos Reis e José Carlos dos Reis conseguiram adquirir o ônibus, entregue juntamente com peças e acessórios. Todas originais e guardadas intactas ao longo de quase quatro décadas. Em Belo Horizonte, o clássico obteve recentemente a placa preta e está disponível para locação de festas e eventos retrô na empresa dos Reis, a Centauro Turismo.

“O Walter (antigo proprietário) adquiriu esse ônibus zero-quilômetro. A Manzi chegou a ter 22 ônibus, todos monoblocos Mercedes-Benz. O que trouxe a necessidade de fazer um estoque de peças da parte mecânica e da carroceria”, conta Jeffeson. 

Carro reserva
O 362 1977 era o carro reserva da Manzi. Nos anos 1990 deixou de trabalhar, passando a ser considerado de coleção. Entre o período em que a placa anterior, de duas letras, foi trocada pela atual, o busão não mais saiu da garagem em São Paulo, sendo colocado para funcionar ocasionalmente. Com o fechamento da Manzi, o último ônibus de trabalho, um O 352 ano 1969, foi vendido em 2008, restando apenas o O 362. “Era uma relíquia que Walter guardava com muito carinho e orgulho junto com o filho, engenheiro mecânico”. No ano passado, Walter resolveu vender o ônibus. Colocou um anuncio na internet, mas quando aparecia comprador, o coração não deixava o veículo partir. Até que no ano passado Jefferson e José Carlos entraram em contato e foram até São Paulo buscá-lo. Conservador, o antigo proprietário da Manzi simpatizou com a história dos empresários da Centauro e o desejo de preservar a história e decidiu vender o monobloco.

“Três dias depois voltamos na garagem para trazer o monobloco e junto com ele trouxemos várias peças como molas, amortecedores, para-brisas, janelas, calotas de roda, tampas do bagageiro, lanternas e outras miudezas, além da história agregada com o ônibus”, acrescenta Jefferson. 

Na viagem de vinda, a preocupação era com os pneus, muito ressecados, e o tanque de combustível, que poderia estar enferrujado. Até BH foram doze horas de viagem e deu tudo certo. Já na garagem da Centauro o O 362 recebeu um banho de loja. Foram substituídas apenas as cortinas, desgastadas com o tempo. O hodômetro registra 239.984 quilômetros, além de 22.715 km em um tacógrafo. “O primeiro passo foi dar uma limpeza geral e tirar a poeira de anos acumulada. Tudo estava como saiu de fábrica. O selo de vistoria da Mercedes-Benz, frisos, assoalho, bancos... tudo perfeito, inclusive as chaves de ignição e da fechadura da porta são originais de fábrica”. Junto com o veículo veio uma caixa de ferramentas lacrada.

Emoção nas ruas 
Há poucas semanas o O 362 da Centauro ganhou placa preta, concedida a veículos antigos com mais de 30 anos de fabricação. Em uma vistoria feita por um clube filiado à Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), o monobloco conquistou 97 pontos (eram necessários 70), recorde de pontuação alcançado entre os veículos do clube. O busão ano 1977 tem feito aparições em eventos de veículos antigos em Minas Gerais, a exemplo de um monobloco Mercedes-Benz O 355 restaurado pela empresa Teixeira, que pertencia ao Serviço Social do Comércio (Sesc-MG). “A intenção quando adquirimos o ônibus era preservar a memória e reviver as belas histórias de quem viveu essa época e proporcionar às novas gerações as mesmas emoções que os motoristas e passageiros viveram há quase 40 anos atrás. A maior gratidão é quando saímos nas ruas e as pessoas observam com um sorriso admirado ou buzinam no trânsito, querendo retribuir o prazer que tiveram só de ver o ônibus”, conclui o empresário e colecionador. Entre as empresas brasileiras que conservam unidades do O 362 também estão a Riodoce, de Caratinga (MG), e a Brasil Sul de Londrina (PR). 

A produção dos monoblocos no Brasil foi cessada em 1996, quando a Mercedes-Benz se concentrou no fornecimento de chassis. A consolidação dos chassis no mercado tornou os monoblocos pouco competitivos. No fim, representavam apenas 10% da produção total de ônibus da marca alemã.

Cronologia dos Monoblocos no Brasil 

1950
O 321 – Primeiro monobloco produzido no Brasil, com opções para transito local e longas distâncias. Também chamado de “bicudinho”, foi produzido até 1970

1960
O 326 – Mais potente, chegou em 1966, deixando mais eficiente a demanda de transporte das companhias. Foi apresentado no 5º Salão do Automóvel

OM 352 – Em 1969, avanço tecnológico no motor: direta injeção de combustível

1970
O 362 A – A linha de ônibus rodoviários trouxe o primeiro motor turbo entre os ônibus nacionais OM 355/5 – Junto dos motores de quatro e seis cilindros, em 1973 a Mercedes-Benz introduziu o motor de cinco cilindros

O 364 – Ônibus monobloco urbano em duas versões: 101 (PB de 13.200 kg) e 111 (PB de 13.500 kg)

1980
O 370 – A família apresentava a mesma tecnologia das versões utilizadas na Europa com arrefecedor de ar adicionado ao motor turbo, em duas configurações: O 370RS com dois eixos e doze metros, e o RSD de três eixos e 13,20m

O 370 UP – Configuração urbana do O 370, introduzida em 1986

O 371 – Atualização do O 370, disponível em configurações diesel, diesel/gás, trólebus, rodoviário/diesel, alongado/diesel, dentre outras

1990
ABS e ASR – Sistema começa a ser oferecido em ônibus e caminhões em 1990

O 400 – Nova família de chassis e plataformas para transporte urbano, rodoviário e ônibus articulados nasce em 1994, nas versões O 400 UP, O 400 UPA, e O 400 RS

Em 1996 a Mercedes-Benz anuncia a desativação da montagem do ônibus monobloco, com comercialização até o final do ano
Com informações: Mercedes-Benz/Vrum

2 comentários:

  1. Bom dia,eu nunca tinha visto um O-364 articulado,pode me enviar essa foto para eu divulgar no meu album?

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  2. PARABÉNS PELA REPORTAGEM DA EMPRESA MANZI , AINDA ATÉ HOJE EU PASSO EM FRENTE DA GARAGEM DA ANTIGA MANZI , SITUADA NA RUA COMENDADOR CANTINHO E LEMBRO DE VER OS CARROS MONOBLOCO 321 , 352 , E 362 E ATÉ O 364 É BOM GUARDAR EM MEMORIA AS COISAS BOAS ABRAÇO PARA TODOS : ELVIS BAIRRO DA PENHA S.P .

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