terça-feira, 7 de junho de 2016

Nas décadas de 40 e 50, viagens de Joinville até Florianópolis e Curitiba levavam mais de seis horas

Por Maria Cristina Dias
Nos anos 50, viajar de Joinville para Curitiba ou para Florianópolis era uma longa aventura. As estradas eram “de chão”, sem asfalto, ainda não havia pontes sobre os rios e a travessia era feita em balsas. O percurso não durava menos que seis horas e podia se alongar por todo o dia, de acordo com as condições do tempo ou com incidentes, como a quebra de veículos. Foi nessa época que o empreendedor joinvilense Bruno Walther Lehmann conseguiu a concessão para atuar no trecho, se uniu a dois sócios investidores e criou a empresa que por mais de uma década foi responsável pelo transporte regular de passageiros entre Joinville, as capitais de Santa Catarina e do Paraná, e Itajaí: a Rápido Sul Brasileiro.

Nascido em Joinville em 1908, Bruno Lehmann, aos 18 anos, foi para São Paulo para estudar na Escola Técnica de Mecânica. Depois de formado, vislumbrou uma oportunidade de negócios fabricando bicos injetores para os motores a diesel usados pelos ônibus. “Não havia peças de reposição, não havia fábricas no Brasil. Faltavam bicos injetores”, conta o filho caçula de Bruno, Paulo Lehmann. Logo, montou uma oficina para produzir os bicos injetores e fornecer para as empresas de transportes.

No fim dos anos 40, ele observou o transporte entre Joinville e as capitais e vislumbrou uma oportunidade de negócios. A Viação Vogelsanger e Filhos, que fazia a linha Joinville/São Francisco do Sul, havia sido fundada em 1945, mas se direcionou para as praias da região. (alguns anos mais tarde, ela também manteve linhas regulares para Curitiba e Itajaí). O transporte rodoviário para Curitiba e Florianópolis, porém, ainda era irregular e precário.

Decidiu então investir em uma empresa de ônibus para fazer as linhas entre as duas cidades, passando por Itajaí. Conseguiu a concessão para operar a linha, vendeu a fábrica de bicos injetores em São Paulo e voltou para Joinville em 1948, onde fez uma sociedade com Salvador Morelli e Ernesto Stile para criar a Rápido Sul Brasileiro. Bruno Lehmann ficou responsável pela administração. “Ele viu a oportunidade em Joinville. E realmente foi um bom negócio”, afirma o filho.

A Rápido Sul Brasileira foi fundada em 1953, com uma frota de seis micro­ônibus com capacidade para 15 passageiros. Os veículos eram adquiridos em São Paulo – só muitos anos depois, a empresa passou a contar com os ônibus maiores fabricados pelas Carrocerias Nielson, em Joinville.

A sede da empresa, a garagem e oficina ficavam em uma construção enxaimel localizada onde fica o antigo fórum de Joinville, na esquina das ruas Princesa Isabel e Dona Francisca. Em uma ocasião, no fim dos anos 50, o galpão sofreu um incêndio e, por pouco, os ônibus não se perderam. “A garagem pegou fogo, mas conseguiram retirar os ônibus”, relata Paulo. Já a venda de passagens e o embarque e desembarque ocorriam princípio na rua 9 de Março, quase na esquina com a Travessa Bachmann, em um prédio de tijolinhos à vista que ainda hoje está no local. Só anos depois do início da operação o embarque foi transferido para Rodoviária de Joinville, na esquina da rua Princesa Isabel com a rua do Príncipe, bem próximo à Confeitaria Dietrich.

Veículos iam para a oficina depois de cada viagem
A Rápido Sul Brasileiro fazia duas viagens por dia: a primeira saía de manhã de Joinville, ia para Curitiba e Florianópolis e voltava no mesmo dia. A outra saía no início da tarde, pernoitava na cidade de destino e retornava no dia seguinte. As linhas não eram diretas de capital a capital. Era preciso
necessariamente descer em Joinville e pegar outro veículo para prosseguir.

O trajeto para cada capital levava de seis a sete horas para ser percorrido – às vezes até oito horas. Para chegar a Florianópolis, conta Paulo, era preciso pegar três balsas: uma sobre o rio Itapocu, em Barra Velha; outra sobre o rio Itajaí e a terceira sobre o rio Tijucas. “Não tinha ponte sobre nenhum deles. As pontes vieram com a BR­101, uns dez ou 12 anos depois”, explica.

Sem asfalto na estrada, as viagens eram marcadas pelo pó, nos dias de sol, ou pela lama, nos dias de chuva. Atolar no meio do caminho era comum e não raras vezes o motorista precisava retirar passageiros de dentro do veículo no colo para que eles não sujassem a roupa. Para desatolar o carro, era necessário esperar o socorro de outro veículo, o que estendia ainda mais o tempo de viagem. “Após as viagens, o carro ia para a oficina e tinha que trocar amortecedores, molas... Passava por uma revisão completa”, explica Paulo Lehmann destacando o estado precário das estradas.

Para Curitiba, o grande obstáculo era a serra. “Os motores não eram fortes e muitas vezes demorava porque tinham que subir devagar a serra”, comenta Paulo. Havia acidentes e muitas vezes os veículos quebravam pelo caminho.

Aos poucos, a demanda aumentou e a empresa foi colocando mais ônibus em circulação. Depois, já nos anos 60, adquiriu veículos maiores, com capacidade para transportar mais passageiros. Esses carros já eram fabricados em Joinville, pela Nielson.

A Rápido Sul Brasileiro operou até 1965, quando foi incorporada pela Viação Penha. Na época, o governo federal estava começando a licitar a BR­101 e Bruno Lehmann achava que o negócio iria deslanchar com a nova rodovia. Mas não chegou a operar na nova estrada. “A Penha fez uma ótima proposta e os dois sócios quiseram vender. Ele tinha a minoria acionária e vendeu. Mas foi a contragosto”, conta o filho.

Depois disso, Lehmann ainda fundou a Rodotigre. Na época, a Tigre estava em forte expansão e não tinha transporte próprio para distribuir seus produtos. Paulo conta que o empresário João Hansen Jr. convidou Lehmann para criar a nova empresa e ficar responsável pela sua gestão. Com isso, ele ficou à frente da Rodotigre por 13 anos, até se aposentar, aos 73 anos. O começo foi com apenas um caminhão, mas ao final desse período a empresa estava com uma frota de 250 veículos que levavam os produtos da Tigre para todo o País. Lehmann morreu em 1995, aos 87 anos.

Aventuras nas estradas
O mecânico Matias Semljanos começou a trabalhar na Rápido Sul Brasileiro três dias depois de chegar ao Brasil e sem falar uma só palavra em português. Quando a empresa foi incorporada pela Viação Penha, ele foi junto. Ao todo, foram 25 anos consertando os veículos que rodavam pelas precárias estradas catarinenses.

Filha de Matias, Verônica Semljanos conta que ele e a mulher, Irís, chegaram a São Francisco do Sul no início dos anos 50 com o objetivo de vir para Joinville, onde tinham parentes. Nascido na Alemanha, mas criado na Ucrânia, ele não falava nem alemão e precisava da ajuda da esposa para se comunicar. Mas fez amizade, por acaso, com um funcionário da empresa, que disse que no local havia vagas para mecânico. O novo amigo os ajudou a chegar a Joinville, encontrar a família e conseguir trabalho.

Como mecânico, Matias fazia a revisão dos veículos na garagem e também a manutenção da parte interna. “Mas não sozinho. Cada horário tinha um mecânico responsável e um ajudante”, explica Verônica. E também se deslocava pelas estradas para socorrer e consertar os carros quebrados pelo caminho.

Verônica recorda das muitas e muitas vezes em que o pai subiu a serra de Curitiba com um jipe para resgatar algum ônibus. Quando era possível, o conserto era feito no local. Aos passageiros, não restava outra alternativa a não ser esperar para seguir viagem. Quando o problema era mais sério, a saída era pegar o ônibus seguinte. E o veículo descia guinchado pelo jipe. Em ambos os casos, o transtorno era grande, pois eram raras as linhas e não havia estrutura no entorno. “Às vezes, não tinha água, lanche, nada”, conta.

Os sustos também eram muitos. Principalmente quando guinchavam os ônibus ladeira abaixo, sob o risco de perder o controle e o veículo despencar na ribanceira. Em suas lembranças de menina, Verônica recorda do pai chegando de madrugada em casa após resgatar algum veículo na serra, e trazendo dois ou três ajudantes famintos e cansados para jantar em casa. “Chegavam às vezes às três da madrugada. A minha mãe, então, levantava e fazia uma baita janta. Era uma festa”, diverte-­se ela.

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