quarta-feira, 13 de julho de 2016

Motorista de ônibus da Via Urbana escolhe a delicadeza como caminho no trabalho

O motorista Itauvan Gomes vai na contramão do trânsito agressivo. O cumprimento aos passageiros e o jeito cordial melhoram a viagem de quem ele transporta

Fim das obrigações, a senhora se encaminha para a parada de ônibus e aguarda o transporte que lhe levará para casa. A idosa se posiciona à porta dianteira na espera que se abra. A experiência dos cabelos brancos lembra das vezes que o motorista fez que não viu, passou reto. Em outras ocasiões até pararam, mas saíram em disparada antes que as pernas descansassem no assento. Dessa vez, a aposentada Zilmar da Silva de Oliveira, 74 anos, viu-se em situação diferente. A pressa dos dias deu lugar à gentileza.

O ônibus da linha 841 – HGF/Papicu/Rio Mar permitiu a entrada. O motorista acenou com a cabeça enquanto conferia o cartão de gratuidade e respondeu ao bom tarde. Só passou a primeira e desembestou a andar quando dona Zilmar estava em segurança, já sentada. “Esse aqui é o único que tem paciência com a gente”, ela arrisca.

Da primeira vez que o improvável superou a rotina, a aposentada nem escondeu a surpresa. Não desceu do ônibus sem cumprimentar o motorista e lhe ofertar boas palavras. “Que Deus lhe dê muitos anos de vida e saúde para você e toda a sua família”, desejou, enquanto descia os degraus com dificuldade — Zilmar passou por três cirurgias que lhe dificultam a locomoção, além da idade.

No Terminal do Papicu, os fiscais não se demoram pensando em quem, no meio daquele vai e vem, ainda consegue manter as gentilezas do cotidiano. É que Itauvan Gomes, 57 anos, faz diferente. “Ele é um dos poucos que eu vejo ser superatencioso com os passageiros”, ousa falar um dos fiscais. O trânsito complicado da Cidade não afeta a paciência nem lhe desvirtua do ofício de carregar gentes.

Se a parada está lotada, ele aguarda que todos subam sem aperreios ou muxoxos dos coletivos — quando os motoristas arriscam em pequenas aceleradas para tanger os passageiros para dentro do transporte. Faz com calma, sem solavancos. Se o cidadão não sabe o caminho para onde vai, Itauvan indica parada, traça estratégias e orienta. Sem agitação.

“O que eu ganho está na simpatia dos passageiros. Um passa pro outro e eles começam a olhar para nós de um jeito diferente”, conversa. O tempo de direção provoca cansaços, claro. São 29 anos trabalhando todos os dias como motorista. Itauvan viu a Cidade crescer, alargar-se em vias e se inchar de carros. As mudanças, no entanto, não mudam o gosta de lidar com gente. Olhando no olho, acenando, tratando bem.

“Se eu estou com eles todos os dias, não tenho porque tratar mal. Eu quero é que eles se sintam bem”, traça o motorista, que durante as viagens deixa o som do transporte em volume baixo, para não atrapalhar o percurso coletivo. Os gestos são comedidos, a direção sem sobressaltos. Ainda assim, há quem reclame. “Tem gente aqui que entra apressada e quer que a gente saía correndo. Não é assim. Tem uns que me xingam”, ele diz.

Neste tempo todo, já escutou impropérios de toda ordem. O motivo: não acelerou o tanto que a pressa do passageiro esperava. É que às vezes o usuário também reproduz a lógica do trânsito agressivo. Itauvan não se importa. “Se o passageiro xingar, não vai adiantar eu revidar. Fico calado e espero ele ficar calmo”, ensina. E, desse jeito, cumpre a rotina. Ali, em frente à direção, ele prova para si e para outros tantos que o dia a dia pode, sim, levar para outros caminhos.
Com informações: O Povo

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