domingo, 9 de outubro de 2016

Os caminhos percorridos pela Expresso Senhor do Bomfim

Por Fortalbus
Fundada no início da década de 40, a empresa Expresso Senhor do Bomfim, para transportar cidadãos aracajuanos com destino a emergentes municípios sergipanos, como Propriá, Tobias Barreto, Itabaiana e Lagarto.

A frota constituía-se de 22 marinetes, alcunha dos antigos ônibus de bagageiro no teto, motor dianteiro e com 20 poltronas tipo metropolitana. Eram percursos por estradas nuas, de chão batido e esburacado. O barulho do motor, ensurdecedor. Quando o sol insistia, trazia poeira e provocava um calor escaldante. Com as chuvas abundantes, as vulneráveis marinetes capitulavam diante da lama e dos atoleiros. Os motores começavam a roncar na madrugada e descansavam apenas no começo da noite quando retornavam do interior. Os passageiros não conheciam experiência mais desconfortável.

O cenário era sombrio, para as poucas empresas que existiam. A maioria operava com uma viatura em estado de deterioração. A conjuntura era amplamente favorável ao transporte hidroviário, o ferroviário, os caminhões e até às primitivas carroças, mais resistentes à buraqueira, a lama e não existia nenhum custo operacional. O concorrente direto da marinete era o caminhão pau-de-arara, a estrela das estradas.

No final da década de 50 o comerciante Marinho Tavares amargava a malfadada opção. Eram sucessivas as quebras das viaturas e a empresa, de cofres vazios, não dispunha de recursos para a onerosa recuperação da frota. No final do ano de 1959, a empresa Expresso Senhor do Bomfim, reduzida a três sucatas, beirava a falência.

No início, a Empresa Senhor do Bomfim - hoje apenas Bomfim - realizava apenas três as linhas: Aracaju/Propriá, Aracaju/Neópolis e Aracaju/Brejo Grande. Poucos meses depois de passar às mãos de José Lauro Menezes, a Bomfim decretou o fim da era das marinetes ao adquirir três ônibus mais modernos, com bagageiro na parte inferior e poltronas reclináveis. No mesmo ano, incorporou as linhas do eixo Aracaju/Salvador com a aquisição da Jordão, empresa que, até então, era a titular das linhas.

Em 1961, incorporou a Expresso Santo Antônio, que circulava para os municípios de Itabaianinha e Tobias Barreto. Em seguida, veio a Viação Nossa Senhora das Graças de Itabaiana e, posteriormente, a empresa São Paulo, da cidade de Frei Paulo, que operava linhas com destino às cidades de Jeremoabo e Paulo Afonso. Na Bahia, em 1963, aconteceu a investida mais ousada, incorporando a O. Macêdo, que dispunha de 27 viaturas.

No ano de 1967, antes do surgimento das BR’s, a empresa inaugurou o serviço leito em Sergipe. Foi responsável pela implantação dos primeiros ônibus com toalete. Além do conforto dos passageiros, a empresa sempre se preocupou com o cumprimento de seus itinerários. Para isso, colocou ao longo das estradas seis tratores que rompiam qualquer barreira: buracos, atoleiros e troncos de árvores caídos, eram as mais comuns.

Em 1969, a pavimentação asfáltica da BR-101, cortou Sergipe de ponta a ponta. Nessa época, as fábricas automotivas, prognosticando o aquecimento do mercado, começaram a investir na produção de ônibus mais modernos. O cenário do segmento em transporte coletivos se transformou radicalmente. A Bomfim, àquela altura, já despontava como uma das mais proeminentes empresas do nordeste, fazendo o transporte para municípios de todo o estado de Sergipe, além de operar linhas para Bahia e Alagoas. De 10 funcionários, em 1960, a empresa passou a reunir 515 em 1969.

Também em 69, o então prefeito de Aracaju, o economista Aloísio de Campos, decidiu abrir concorrência pública para a exploração do transporte urbano, tendo em vista a substituição do deficitário sistema kombi auto-lotação. Nesse momento nasceu a Bomfim Urbana, primeiramente operando com 20 ônibus, mas logo passando a 80 veículos.

Em 1977, é implantado o primeiro serviço executivo. Nascia a geração de ônibus que culminou com o surgimento do top class (os ônibus top de linha, que prestam um serviço cinco estrelas, símbolo do padrão de qualidade Bomfim). Um ano depois, José Lauro fundou a Viação São Pedro, empresa destinada ao transporte urbano de Aracaju e que mais tarde partiu para atuar, também, em Salvador. A partir daí, a Bomfim iniciou um processo de diversificação de seus serviços, passando a atuar em outros segmentos do setor de transportes, como cargas, turismo e renovação de pneus, constituído-se em uma holding.

A história do fundador e pioneiro do transporte sergipano
No setor dos transportes a Empresa Senhor do Bomfim é o melhor exemplo e José Lauro Menezes Silva o melhor testemunho de trabalho. Tudo começou há 50 anos, quando Oviêdo Teixeira, pai de Gilza e sogro de José Lauro, teve a idéia de comprar três velhas marinetes (nome que era dado aos ônibus com bagageiro na parte superior externa) de propriedade de Marinho Tavares. Oviêdo Teixeira queria que a filha casada permanecesse em Aracaju, deixando de morar no município de Riachão do Dantas, na Fazenda Maxixe, de propriedade de Zeca Barbosa, pai de José Lauro. O negócio foi feito e de criador de gado José Lauro Menezes Silva, nascido em Lagarto, passou a organizar uma empresa – Firma Individual – para tocar a nova atividade: nascia a moderna Empresa Senhor do Bomfim, no dia 24 de fevereiro de 1960.

José Lauro Menezes Silva assumiu a empresa com a garra de quem tinha uma meta determinada, um objetivo seguro, uma disposição férrea para levar adiante um dos mais requeridos e, naquele tempo, complicados serviços. Sergipe e principalmente Aracaju guardavam memória dos vários tipos de transporte que serviram à população: barcos com viagens pelo rio Sergipe, atendendo aos portos de Laranjeiras, Maroim, Riachuelo, Santo Amaro das Brotas, secundados por Saveiros, que transportavam açúcar e outras mercadorias, e conduzia passageiros; bondes, à tração animal; trens, unindo Bahia e Sergipe e cortando Sergipe, do sul ao norte, com seus trilhos cortando as cidades, ao longo da rota. Dois trens Suburbanos ligavam Salgado e Capela a Aracaju, o que incluía passageiros de várias estações.

Depois surgiram as marinetes, os bondes elétricos, os caminhões “pau de arara” que transportavam feirantes e outros viajantes, os carros de praça (táxis), os aviões, que desciam no leito do rio Sergipe e, mais tarde, pousavam no Campo de Aviação do Aero Clube de Sergipe. Por último surgiu o veículo utilitário Kombi, transportando passageiros entre o centro e os bairros da capital.

Foi diante de um quadro degradado dos transportes públicos, que José Lauro Menezes Silva preparou a Empresa Senhor do Bomfim para modernizar os serviços de transportes de passageiros, entre Aracaju e algumas cidades do interior, Aracaju e Salvador e outros destinos fora do Estado, até que em 1969 o então Prefeito José Aloísio de Campos abriu procedimento legal para exploração das linhas de transporte entre o centro de Aracaju e os bairros. Com a experiência do transporte intermunicipal e interestadual, a Bomfim ganhou a concorrência e deu início a uma nova era, comprando ônibus novos, confortáveis e seguros, superando o atraso que, por quase um século, marcou o serviço de transporte de passageiros em Sergipe.

Em 50 anos a Empresa Senhor do Bomfim multiplicou seus serviços, suas linhas, seus ônibus, tornando-se uma grande empresa, viajando em sete Estados, atendendo a diversos municípios do interior sergipano, com presença em Salvador, através da Barramar, e com serviços de turismo. Seus moderníssimos carros, que fazem a linha Aracaju-Salvador, em várias horários por dia, são carinhosamente conhecidos como “aviões da Bomfim”, o que sugere conforto, rapidez, segurança, e tudo o mais que é próprio das companhias aéreas.

José Lauro Menezes Silva, que conta com a colaboração do filho Lauro Antonio Teixeira Menezes, na expansão e na direção empresarial, continua na luta diária e esbanja juventude, administra como se estivesse começando um novo negócio, e tem a consciência de que deu sua parcela de contribuição ao desenvolvimento de Sergipe e ao bem estar dos sergipanos. Por isto mesmo iguala-se aos maiores empresários do Estado, com uma biografia toda ela de trabalho e de exemplaridade para as novas gerações de empreendedores sergipanos.

Em 2014, a Bomfim encerrou suas operações, repassando suas linhas interestaduais para as empresas Rota e Águia Branca, mas deixou marcado sua história no transporte rodoviário no nordeste brasileiro.

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