domingo, 16 de julho de 2017

Um pequeno histórico do transporte coletivo de Teresina

Com o fim do serviço de bondes da capital no ano de 1930, deu-se início a diversas tentativas de se instalar transportes coletivos urbanos fato que, com o passar dos anos, transformou os ônibus em essenciais no cotidiano do teresinense. Tanto é verdade que sua falta provoca mudanças no ritmo da cidade e a maioria sente esses efeitos durante as greves de motoristas e cobradores. 

Amados pelos saudosistas e pelos chamados busólogos, e odiados pela maioria dos usuários, os ônibus de Teresina possuem uma história que se repete nas grandes cidades do Brasil: são desconfortáveis, insalubres, demorados, caros, lotados, enfim, representam muitas das condições indignas a quem usufrui desse transporte e a quem nele trabalha.

Abaixo foram selecionados alguns ônibus antigos que circulavam como coletivos em Teresina para mostrar um pouco da história desse transporte na cidade e das empresas prestadoras desse tipo de serviço. É possível notar também a mudança dos modelos dos veículos, das linhas, dos itinerários e até mesmo expressões linguísticas e modismos que surgiram e depois se perderam nas brumas do tempo.

Auto Volante Piauhyense (1936)
A Auto Volante Piauhyense foi talvez a primeira empresa de ônibus coletivos de Teresina, fundada em 1935 pelo empresário e político Manoel Nogueira Lima (Ciro Nogueira "pai" e Ciro Nogueira Filho são, respectivamente, seu filho e neto), que possuía muitas influências e regalias ao lado do prefeito Lindolfo do Rego Monteiro (1936-1945) e principalmente do interventor federal Landry Salles (1931-1935), quem inclusive o nomeou prefeito de Pedro II, sua cidade natal, em 1931. Não é de se estranhar que por isso sua empresa ganhou muitas facilidades como concessões fiscais da Prefeitura Municipal e o direito de explorar sozinha o ramo de transportes urbanos por cinco anos.

Também chamada de Empreza Volante Piauhyense, entrou em funcionamento em 1936 e os seus seis veículos do tipo artesanal urbano consistiam em alterações de modelos Ford V8 inserindo na parte traseira uma carroceria. A agência ficava localizada na rua Álvaro Mendes e possuía quatro linhas: Praça Rio Branco-25° BC; Praça Rio Branco-Estação da Estrada de Ferro; Praça Rio Branco-Vermelha via Cemitério São José; e a intermunicipal Teresina-Piracuruca.

Em 1936, as passagens da empresa custavam 200 réis e já no ano seguinte sofreram um aumento considerável passando para 500 réis. Não resistiu aos poucos passageiros (A maioria preferiu se deslocar a pé ou de bicicleta), às sucessivas panes de seus automotores e aos preços altos das tarifas, e faliu antes mesmo de chegar a década de 1940.

Viação Municipal de Teresina (1940) 
Em 28 de outubro de 1940 a Prefeitura Municipal de Teresina criou a Viação Municipal de Teresina, outra tentativa de se estabelecer transportes urbanos e suburbanos na cidade. Uma novidade é a fixação de um horário para o funcionamento do serviço: de 6 da manhã até a meia-noite, exceto nos feriados.

Como de costume, os carros consistiam também em alterações de automóveis. Neste caso os modelos alterados eram três auto-ônibus modelo Ford V8 1940 obtidos junto a uma das filiais da firma Álvaro de Castro e Silva & Cia. no Rio de Janeiro.

A partida dos veículos era na Praça Marechal Deodoro, exceto do Planalto da Vermelha (Zona Sul) que partia da Capela de Nossa Senhora de Lourdes. De acordo com a CEPIMAR, eram apenas três itinerários: Planalto da Vermelha-Praça João Luis Ferreira via Cemitério São José; Praça Deodoro-Escola Major Domingos Monteiro; e Praça Deodoro-Estação Estrada de Ferro. Estranho, portanto, é a presença da linha São Raimundo (Imagem abaixo - nº 3).

À guisa de curiosidade, data da década de 1940 as primeiras interrupções dos serviços de transportes por motoristas e cobradores em Teresina. A reivindicação consistia em regularizar a profissão e o salário. E para ser motorista ou cobrador da empresa o indivíduo, segundo o decreto-lei nº 102/1941, "não poderia ter defeitos físicos repulsivos aos sentidos", um critério inadmissível nos dias de hoje.

Empresa Cícero Santos (1950) 
A empresa Cícero Santos - também conhecida como C. Santos -, do empresário Cícero de Oliveira Santos, passa a atuar em 1950 na capital piauiense. Seus veículos, conhecidos popularmente como Fargo e jardineiras, que consistiam em caminhões Chevrolet com carroceria adaptada para abrigar os passageiros, feita de madeira (Do pau d'arco, também conhecido como ipê) e revestida com zinco e outros materiais. Quem andou nestes automotores garante que eram bastante desconfortáveis devido aos assentos de madeira (Alguns tinham estofados em couro).

Sua principal linha era a intermunicipal Teresina-Altos com horários definidos de saída (Conforme a imagem acima, 7h30min em Altos e 14h30min em Teresina, especificamente na Praça Marechal Deodoro. Perdeu a exclusividade do uso deste trecho apenas em 2010 para a Empresa Barroso). A definição de um tempo de saída fez com que a partir dessa época as jardineiras - e todos os outros tipos de ônibus, por extensão - fossem conhecidas também por horários, expressão em desuso atualmente.

Mas apesar dos horários fixados pela empresa Cícero Santos, é de conhecimento que durante a década de 1950 muitas empresas desses auto-ônibus de Teresina apenas autorizavam a partida dos veículos quando estavam lotados. Caso contrário, permaneciam no local até atingir a lotação.

Auto Viação Rio Poty (1967)
Embora modelos da empresa paulista Grassi já transitassem em Teresina durante a década de 1950, é a partir da década de 1960 que passam a ser mais frequentes na cidade os coletivos com formatos semelhantes aos que se conhecem atualmente. Também neste período começa o domínio da alemã Mercedes-Benz e da encarroçadora paulista Caio Induscar como fabricantes e distribuidoras dos primeiros ônibus, fato superado só anos depois pela gaúcha Marcopolo e sua encarroçadora Ciferal.

A Auto Viação Rio Poty Ltda. é uma das primeiras a encomendar ônibus da marca Mercedes-Benz com duas portas na lateral direita e carroceria da Caio Norte. Os modelos da imagem acima são os mesmos que ficaram conhecidos no Brasil como Caio Jaraguá. Propriedade do empresário Antônio Venâncio Leite, a empresa passou a operar a partir de 1967 nas ruas da capital piauiense.

Auto Viação Coimbra (1970)
A Auto Viação Coimbra, de Luís da Costa Coimbra, inicia suas atividades no ano de 1968 em Teresina. Com modelos do tipo monobloco obtidos da Mercedes-Benz, atuava tanto em viagens intermunicipais como em linhas urbanas da capital (Cabral via Centro; Morro da Esperança/Morro do Urubu via Centro; Vila Militar via Centro; Monte Castelo via Centro; e Porenquanto).

Era possível ver a frota dessa empresa em Teresina até 1984 quando Luís Coimbra decide transferi-la de vez para a cidade de Parnaíba, onde permanece até os dias de hoje, inclusive com linhas urbanas.

Empresa Dois Irmãos (1978)
A década de 1970 marca o surgimento de algumas empresas de ônibus que predominam até hoje na cidade e que ficaram muito conhecidas pelos teresinenses: a Emtracol e a Dois Irmãos. Esta última iniciou operações em 1971 principalmente com a linha Teresina-Timon, a única que servia toda a cidade de Timon na época.

Fundada por Osvaldo Mendes de Oliveira, a Dois Irmãos (Osvaldo Mendes e Cia. Ltda.) tem sede na cidade maranhense de Timon, embora possua linhas em bairros de Teresina, principalmente nos da Zona Sul. A atuação delas por essas bandas do Parnaíba foi facilitada com a inauguração da Ponte Engenheiro Antônio Noronha ("Ponte Nova").

Uma dessas linhas era a extinta Sacy Circular com o Mercedes-Benz Monobloco O-364 Urbano, em operação a partir de 1979, mesmo ano em que a Cohab-PI inaugurou na Zona Sul o conjunto habitacional Sacy bem próximo à empresa homônima de concreto do Grupo Lourival Parente. Também serviu esse conjunto até o ano de 1988 a Sacy-Centro via Avenida Miguel Rosa, da extinta Empresa Morais (1960-1988).

Empresa Gomes (1981)
Em 1964, a Empresa Manoel Ribeiro, de Manoel de Sousa Ribeiro, ingressa no ramo dos coletivos de Teresina através de dois ônibus - um Chevrolet Bus 1948 (26 passageiros) e um Chevrolet Bus 1964 (36 passageiros) - servindo por um tempo os conjuntos Três Andares, IAPC, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Conjunto Redenção) e localidades rurais.

Mas catorze anos depois o empreendimento é vendido para a Emtracol e para a Empresa Gomes, esta última já atuando desde 1970 na cidade sendo uma das primeiras a estabelecer uma linha para o conjunto Parque Piauí, inaugurado pela Cohab-PI, em 1968, em local isolado depois da Tabuleta. Percebe-se que a linha ainda existia em 1981 através da imagem acima do Mercedes-Benz Monobloco O-352 Urbano, um modelo que era possível ver até o início da década de 1990.

A Empresa Gomes (De Francisco Marijesus Barbosa Gomes) herdou também antigos itinerários como IAPC via Centro e Três Andares via Centro com a falência da Empresa Manoel Ribeiro. Ainda existe e sua garagem fica no bairro Vermelha, mas não atua mais com coletivos urbanos.

Empresa Viação Primavera (1983) 
Fundada na década de 1960, a Auto Viação Primavera Ltda. servia os bairros da Zona Norte como Poty Velho, Mocambinho, Buenos Aires, Vila Militar (Marquês) e Primavera. Com a inauguração do Mocambinho, foi a primeira empresa de ônibus a se instalar naquele conjunto habitacional com um único itinerário que ia da Avenida Duque de Caxias até a Avenida Frei Serafim.

Chegou a contar com uma incrível frota de 64 ônibus, embora fossem constantes as reclamações de usuários de que os veículos eram poucos e muito velhos. Não suportou as oscilações das passagens, do mercado e, principalmente, a instalação de novas empresas de coletivos. Todas suas linhas foram transferidas entre 1985 e 1986 para a Teresinense ou para a Transcol.

Transcol (1986) 
Em 1983 entra em circulação a Transcol (Transportes Coletivos Ltda.) com a sua tradicional pintura verde e branca em três faixas horizontais. A ascensão de novos conjuntos como o Angelim fez com que se estendessem os serviços até essa região da Zona Sul com duas linhas: Angelim via Avenida Miguel Rosa e Angelim via Avenida Barão de Gurgueia e CEASA, ainda existentes. Pela imagem (Tirada na PI-130, antiga estrada para Palmeirais) nota-se claramente que a entrada era pela porta traseira situação invertida na década de 1990.

Emtracol (1986) 
A linha Planalto, da Emtracol, deu seus suspiros finais em agosto de 1986. A partir da metade deste mês passaria a funcionar nos quadros da Teresinense que até então só possuía ônibus nos bairros da Zona Norte. Também eram os últimos anos de funcionamento do Caio Gabriela II, modelo lançado em 1977 e com as últimas unidades fabricadas em 1984. Algumas delas permaneceram rodando como coletivos em Teresina até o início de 1992 quando a Prefeitura Municipal obrigou os empresários a renovar de vez a frota. Nem precisa dizer que o Caio Gabriela II, devido ao tempo e à vida útil já vencida, quebrava bastante durante o percurso.

Teresinense 
Após a quebra da Viação Primavera, a linha Mocambinho se transferiu para a Teresinense com o número 210, depois redefinido em 1989/1990 para 150 quando virou Mocambinho via Duque de Caxias.

O modelo acima é um Marcopolo San Remo Mercedes-Benz OF-1313 originalmente fabricado entre 1978 e 1984. Ao que tudo indica, a imagem parece ter sido tirada no lugar onde foi construída a parada final do conjunto Mocambinho (Até 1991 ou 1992 ela não existia).

Chama a atenção a pintura clássica da Teresinense que, na realidade, faz parte das cores da Caio Induscar a partir de 1976 conforme pode se conferir clicando aqui, aqui e aqui. Com o tempo a pintura virou referência aos ônibus da Teresinense.

Transcol (1990) 
Após a Empresa Gomes deixar de atuar com os coletivos urbanos, várias linhas se transferiram para outras empresas. Por exemplo, a do Parque Piauí foi parar na Transcol que também ficou responsável por outras linhas como a dos bairros Acarape e Parque Alvorada, todas atualmente extintas assim como as do Parque Piauí.

Emtracol (1990) 
A Emtracol estrearia nova pintura em branco e detalhes em verde (Nome da empresa e números) ainda na década de 1980 e estenderia nessa época sua linhas até o conjunto Renascença (Construído em três fases entre 1986 e 1991). O itinerário Renascença via Avenida Miguel Rosa foi absorvido anos mais tarde por outro com o nascimento do conjunto São Paulo (Zona Sudeste).

Na imagem, o modelo é um Caio Padron Amélia Mercedes-Benz OF-1314, fabricado entre 1980 e 1988 e comum nas ruas teresinenses no final da década de 1980 e início da década de 1990. Já a via quase intrafegável é a Rua Dr. Pedro Teixeira (Liga o Renascença ao conjunto residencial Dirceu II) na época com uma galeria inacabada visível pela água no asfalto e pela tubulação exposta.

Emtracol (1991) 
Na década de 1990 ainda era possível ver linhas de ônibus hoje impensáveis devido ao lugar que se encontram ou por causa da proximidade com o Centro. Algumas delas: Acarape (Transcol), Matadouro (Teresinense), São João (Emtracol), Jóquei via Centro (Asa Branca) e Jóquei via Morada do Sol (Asa Branca). Na época, entretanto, esses bairros eram considerados isolados sendo, por isso, que a existência destes itinerários se justificava. Todas foram absorvidas por outras de lugares mais distantes.

O ano de 1991 marcou também uma mudança significativa no trajeto dos coletivos. Para desafogar o trânsito em determinados locais, a Secretaria Municipal de Transportes Públicos decidiu que não mais passariam pela Rua Rui Barbosa as linhas das Zonas Sul e Leste que agora deveriam trafegar, no retorno aos seus bairros, pela Praça Marechal Deodoro, pela Avenida Maranhão e seguir pela José dos Santos e Silva, itinerário semelhante ao atual. Alguns outros das Zonas Norte e Leste trafegariam pela rua Coelho Rodrigues e não mais pela rua Simplício Mendes.

Um dado curioso é que durante essa época muitos coletivos, principalmente das Zonas Norte e Sul, trafegavam pela rua Paissandú vindo da Avenida Maranhão e tinham parada obrigatória na Central de Artesanato (Na Praça Pedro II).

Cidade Verde (1991) 
Para quebrar um monopólio estabelecido pelas empresas de coletivos, a gestão do prefeito Wall Ferraz (1986-1989) facilitou a entrada de novas empresas como Taguatur (Fundada em Brasília-DF), Viação Piauiense, Asa Branca, Viação Santana e Cidade-Verde. Todas passaram a operar no ano de 1989 e com frota nova conforme se vê na imagem acima do ônibus da Cidade-Verde: um modelo Caio Vitória com chassi Volvo B58 fabricado em 1991.

O período de entrada dessas empresas coincidiu com uma fase economicamente ruim para o Brasil. A inflação galopante e a mudança constante de moedas se refletiu nas tarifas de ônibus que aumentavam em pouco tempo. Entre 1991 e 1992, por exemplo, mudaram de preço várias vezes e de forma exorbitante. Em maio de 1991 era 60 cruzeiros a inteira e em junho já seria 80 cruzeiros. Mais de um ano depois, em setembro de 1992, já custava 1800 cruzeiros.
Com informações: Teresina Antiga

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