quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Ascensão e queda do transporte intermunicipal de passageiros no Rio Grande do Norte

Por Cassiano Arruda Câmara
A situação do transporte rodoviário intermunicipal no Rio Grande do Norte é impar. Quem se der ao trabalho de buscar as suas origens vai chegar a conclusão que é um dos raros setores da sua economia que nasceu e cresceu à margem do poder público. E agora vive um acentuado declínio justamente quando o estado aparece, achando que pode resolver o problema. Não pode.

Nesses últimos 70 anos, antes mesmo do nosso Rio Grande do Norte contar com alguma coisa parecida com um sistema de rodovias, alguns pioneiros, com a cara e a coragem, além de um caminhão adaptado para transportar passageiros (os mixtos ou mesmo as “sopas”), foram identificando cidades que pudessem gerar algum fluxo de pessoas que tivessem necessidade de viajar, e na direção dos veículos também foram aprendendo a ser empresários.

Quando o asfalto chegou, no final dos anos 60, muitos deles já estavam estruturados aproveitando os ventos favoráveis da implantação da indústria automobilística no Brasil e montaram empresas, muito antes do estado chegar dizendo que o serviço que eles prestavam se tornara uma concessão sua. Quem chegou primeiro ganhou as concessões.

A maioria dos pioneiros enriqueceu no negócio, que chegou a uma segunda geração que aprendeu na escola e recebeu como uma bênção a intervenção estatal, mesmo no estabelecimento de tarifas. Continuaram ganhando dinheiro. Muito dinheiro. Porém, foram se distanciando do freguês e até do negócio.

Foi quando apareceu a concorrência. De maneira muito discreta, cinquenta anos depois da chegada dos pioneiros, muita gente no interior do RN começou a tratar de transporte com o dono do negócio. Donos de carros de aluguel, com pouco público para atender em pequenas cidades, começaram a pegar passageiros que estavam insatisfeitos com o serviço oferecidos pelos ônibus e passaram a transportá-los em automóveis.

Com lotação de cinco, dava para concorrer no preço, e ainda com o diferencial de oferecer atendimento à domicílio. Ai começou o declínio do sistema. E nas reclamações, os “loteiros” passaram a ser responsabilizados pelo declínio das empresas. Na verdade as causas eram outras, começando pela queda na qualidade do serviço que as empresas ofereciam, perdendo condições de competir com os independentes com serviço de melhor qualidade e custos muito mais baixos.

É neste cenário que o governo do estado resolveu intervir, mantendo um modelo que dificilmente se sustentará em pé. No modelo proposto tem a existência de empresas de ônibus como um dos seus pilares, e pelo visto não existem tantas empresas capazes de atender a convocação.

Nos últimos 15 anos o RN perdeu metade das empresas que fazem o transporte intermunicipal. Até a virada do século, uma dezena delas explorava o mercado norte-riograndense. Com a chega dos “loteiros” a frota foi reduzida em menos trezentos ônibus e menos 1.500 empregos com carteira assinada.

Do ponto de vista da visão governamental, foram 96 linhas intermunicipais abandonadas. E não apareceu ninguém para reivindicá-las, nem mesmo entre as cinco empresas do ramo que ainda resistem.

Será que, com a abertura de concorrência, vai aparecer algum interessado em prestar o serviço?

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