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Grupo Transbrasiliana pode deixar rombo fiscal de meio bilhão de reais para o País

Por Rafael Oliveira / Jornal Opção
Em uma história conturbada entre venda irregular de cotas societárias, dilapidação patrimonial e até pedido de falência antecipada, a empresa goiana de transporte pode deixar colaborares, credores e governos sem pagamento. Procuradoria da Fazenda Nacional sugere falência.

A recuperação judicial do grupo Transbrasiliana de Transportes e Turismo pode encerrar em fevereiro de 2019 com o decreto de falência por um juiz do Fórum Cível de Goiânia sem pagar os devidos credores ou parte deles (leia abaixo as ponderações do magistrado Aureliano Albuquerque Amorim). A empresa goiana pertencia ao grupo Odilon Santos e ao empresário Lázaro Braga até dezembro de 2016, quando foi vendida para um grupo de investidores paulistanos durante o processo de recuperação judicial, iniciado em abril do mesmo ano.

A empresa de transporte rodoviário soma dívidas de quase R$ 500 milhões junto a fornecedores, ex-colaboradores da empresa, governos federal e do Estado de Goiás e credores bancários.

O juiz de Direito que atua diretamente no processo da Transbrasiliana, Aureliano Albuquerque Amorim, da 4ª Vara Cível de Goiânia, explica que os dois primeiros anos da recuperação são essenciais para saber se a empresa terá condições de se reerguer. “A partir do momento que a empresa pede a recuperação judicial, ela precisa cumprir o plano e ir pagando suas dívidas normalmente em um prazo de cinco, oito ou 10 anos. Se a empresa pagar tudo nesses dois primeiros anos iniciais, não se pode mais decretar a falência. Se ela não pagar os dois primeiros anos, é possível decretar a falência.” O magistrado postula que a Transbrasiliana tem condições viáveis de se reerguer após a recuperação que acontece desde 2016.

Falência iminente
Apesar da investida na Justiça goiana para tentar recuperar a saúde financeira do grupo, a Procuradoria da Fazenda Nacional (PFN) reconhece o iminente decreto de falência da empresa sem que se quite os débitos com os credores.

O manifesto assinado pela Procuradoria da Fazenda Nacional na última Assembleia Geral de Credores na segunda-feira, 19, em Goiânia, sugeriu que seja decretada a falência da empresa para que ela não se torne elemento de perturbação do bom andamento das relações do mercado.

“Somente com a União, as recuperandas possuem débitos na ordem de R$ 300 milhões. Os tributos correntes não estão sendo pagos, inclusive tributos retidos na fonte (Imposto de Renda) e FGTS”, informa um trecho da manifestação da Procuradoria da Fazenda Nacional juntada nos processos aprovados naquela assembleia.

O parecer, escrito a mão durante a reunião de credores, assinala que “ainda que houvesse a liquidação de todo o patrimônio das recuperandas, subsistiria uma dívida milionária não adimplida, o que salvo melhor juízo, denota a inviabilidade da presente recuperação. Se a crise é insuperável, se o crédito tributário não for considerado, a tentativa de recuperação mostra-se mais danosa por impor aos credores — em especial os trabalhistas — um sacrifício desnecessário na tentativa de reestruturar uma empresa economicamente inviável”.

Os antigos controladores da empresa, a família Braga e o grupo Odilon Santos, venderam as empresas para um grupo investidor de São Paulo, após autorização do juiz Aureliano Amorim no final de 2016. As dívidas milionárias do grupo passaram à responsabilidade dos novos sócios no momento da compra e após dois anos do processo, que se encerram em janeiro de 2019, os ex-sócios não precisarão responder por quaisquer demandas jurídicas relacionadas ao grupo Transbrasiliana.

O grupo investidor de São Paulo é composto por três empresas: SSG Incorporação e Assessoria, representada por um único sócio, Sidnei Piva de Jesus, CSV Incorporação e Assessoria Empresarial, representada por Camila de Souza Valdivia, e MROJ Gestão e Administração de Bens, representada pelo único sócio Milton Rodrigues Júnior.

Milton Rodrigues Júnior foi preso no dia 28 de maio de 2018 depois de pedido da 6ª Vara Criminal da Comarca de Guarulhos em São Paulo por crime de estelionato. O ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio de Mello decidiu soltar Milton Rodrigues Júnior no dia 11 de setembro de 2018. “Defiro a liminar. Expeçam alvará de soltura a ser cumprido com as cautelas próprias: caso o paciente não se encontre recolhido por motivo diverso da prisão preventiva formalizada no processo nº 0015700-04.2015.8.26.0224, da Sexta Vara Criminal da Comarca de Guarulhos/SP. Advirtam-no da necessidade de permanecer com a residência indicada ao Juízo, atendendo aos chamamentos judiciais, de informar eventual transferência e de adotar a postura que se aguarda do homem integrado à sociedade. Colham o parecer da Procuradoria-Geral da República”, frisa a decisão do ministro.

Sidnei Piva de Jesus é sócio de outras 18 empresas espalhadas pelo Brasil e possui um capital social de apenas R$ 1,6 milhão. Em tribunais de Justiça e do Trabalho, Sidnei Piva encontra-se inscrito no banco nacional de devedores trabalhistas com 35 inscrições: 64 processos no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região; 10 processos no Tribunal Regional Federal de São Paulo (2 ações monitórias e 8 execuções) e 25 processos no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Camila de Souza Valdivia figura em 15 empresas, sendo sócia em oito e exerce cargo administrativo em sete. Em todas as participações empresariais, ela possui R$ 1,5 milhão em capital social e mantém sociedade com Sidnei Piva em cinco empresas. Quanto aos processos judiciais, a empresária tem 42 inscrições no banco nacional de devedores trabalhistas distribuídos em 62 processos no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região; um processo no Tribunal Regional Federal de São Paulo e sete processos no Tribunal de Justiça de São Paulo — mesmos locais de Sidnei Piva de Jesus.

O terceiro sócio do grupo paulista, Milton Rodrigues Júnior, possui R$ 23,5 milhões em capital social e figura como sócio em quatro empresas. A principal fatia está em 50% da empresa Transportes Dalçoquio, onde mantém R$ 23 milhões de capital.

Na justiça, Milton Rodrigues Júnior possui sete inscrições no banco nacional de devedores trabalhistas, divididos em: 25 processos no TRT da 2ª Região; 10 processos no TRF de São Paulo e 62 processos no TJ de São Paulo.

Sidnei Piva de Jesus e Camila de Souza Valdivia já participaram de outro processo de pedido de falência promovido pela empresa Laurenti Equipamentos para Processamento de Dados, em 23/9/2016.

A empresa Transportes Dalçoquio, na qual Milton Rodrigues Júnior tem 50% de sociedade, também está em recuperação judicial e a administradora da Transbrasiliana levantou a lista de credores com o valor de R$ 144,6 milhões. A recuperação da Dalçoquio tramita em segredo de justiça.

Em nenhum documento do processo da recuperação judicial consta o valor da venda do grupo Transbrasiliana aos três sócios paulistas. Até o momento, no decorrer do processo, os novos sócios apenas assumiram as dívidas do grupo goiano por meio de transferência de cotas societárias em dezembro de 2016.

Os antigos donos do grupo pediram ao juiz Aureliano Amorim a venda das empresas — o que foi deferido pelo magistrado no primeiro momento ao entender que os compradores teriam condições de reerguer o grupo goiano por atuarem na área de transportes. Os três são proprietários do grupo Itapemirim, no Espírito Santo.

O magistrado explicou que os novos sócios cometeram irregularidades na administração do grupo Transbrasiliana e foram afastados por decisão judicial. Logo depois, os sócios pediram que as cotas societárias fossem transferidas apenas para Milton Rodrigues Júnior. A empresa administradora da recuperação, a Capital Administradora, recomendou que a transferência não fosse efetivada. O juiz Aureliano Amorim acatou a recomendação e indeferiu o pedido de transferência. E foram nomeados dois interventores judiciais: Marino Tolentino Filho e Romualdo José Crusco, em dezembro de 2017, por indicação do integrante do Poder Judiciário em Goiás e os nomes foram aceitos na assembleia geral de credores. O grupo Transbrasiliana continua ativo em suas atividades rodoviárias de viagens interestaduais.

Procuradoria da Fazenda Nacional manifesta-se pelo não prosseguimento da recuperação judicial
O procurador da Fazenda Nacional Valter Ventura Vasconcelos Neto emitiu um relatório em 13 de novembro de 2018 pedindo o ingresso da União no processo como terceira interessada, dando destaque aos débitos fiscais federais — no montante superior a R$ 260 milhões. O procurador cobra que o governo federal faça parte da Assembleia Geral de Credores com direito a palavra, a fim de acompanhar e expor suas argumentações sobre a viabilidade ou inviabilidade do plano de recuperação.

Procurador da PFN, Valter Ventura
No relatório foi exposto que o processo de recuperação não merece avançar apontando a irregularidade de transferência das cotas societárias, ausência de informação sobre o débito fiscal de todo o grupo, irregularidades na venda de ativos, inexistência de saldo nas contas das empresas do grupo, irregularidades na apresentação de documentos e utilização de bens da Transbrasiliana por outra empresa (prova de dilapidação patrimonial).

O procurador sublinhou que a União já noticiou a existência de confusão patrimonial entre as empresas Transbrasiliana e Itapemirim, ao verificar que vários ônibus da Itapemirim estavam no pátio da Transbrasiliana, sem qualquer autorização prévia. O servidor federal destacou que a venda dos ativos do Transhotel (hotel do município de Araguaína, no Estado do Tocantins) é investigada em ação criminal por ter sido realizada com nítida fraude falimentar.

Dinheiro de imóveis vendidos a fim de pagar funcionários foi usado irregularmente
A Capital Administradora ingressou com um relatório no processo de recuperação em fevereiro de 2017 informando ao magistrado algumas irregularidades cometidas pela gestão do grupo paulista.

O relatório traz a alienação de três imóveis: em Brasília, Santa Inês (Maranhão) e um hotel de Araguaína no Tocantins. O imóvel de Brasília foi vendido para financiar o capital de giro das empresas, pagar salários e fornecedores e reativação de veículos.

O imóvel em Santa Inês, cidade do Maranhão, foi vendido para incrementar o capital de giro novamente, mas sem apresentar um novo prospecto para a venda. Os novos sócios venderam o imóvel por R$ 2,6 milhões.

O hotel em Araguaína no Tocantins foi vendido por R$ 6 milhões, pagos em duas parcelas — de R$ 4 milhões, na autorização judicial para venda, e de R$ 2 milhões, no dia 10 de maio de 2017. A primeira parcela foi depositada na conta das recuperandas no dia 2 de janeiro de 2017.

No dia 9 de janeiro de 2017, os R$ 4 milhões foram empregados em dois fundos de investimento no banco BTG Pactual e Fundos BNP Paribas Match, divididos em R$ 2 milhões em cada.

As recuperandas alegaram à administradora da recuperação que o dinheiro foi usado para a empresa e apresentaram notas fiscais do período de 10/1/2017 a 19/1/2017. Mas a administradora alega que 13 notas fiscais não foram encontradas.

O grupo Transbrasiliana gastou R$ 3,8 milhões na compra de 26 ônibus para a frota, sendo que dois foram devolvidos e o Grupo Capital não confirmou se todos os veículos foram entregues. A perícia da administradora constatou que 15 ônibus foram reformados com a identificação visual da Itapemirim e estavam na garagem da Rápido Marajó em Goiânia; quatro veículos tiveram as placas indicadas, porém estavam na garagem da Itapemirim e cinco não foram entregues e não foram encontrados.

Outras notas fiscais foram pagas de forma irregular por empresas ligadas aos sócios paulistas. Em janeiro de 2017, a empresa Fábrica de Grampos Aço recebeu o valor de R$ 645 mil pelo fornecimento de peças para ônibus. No entanto, parte das peças compradas não foi encontrada e outras foram parar na garagem do grupo Itapemirim — outra empresa dos sócios paulistas. A empresa citada foi declarada como propriedade de Sidnei Piva de Jesus, um dos sócios da Itapemirim.

A empresa Delta X Tecnologia da Informação recebeu R$ 267 mil.  Trata-se de outra empresa de Camila de Souza Valdivia e Sidnei Piva de Jesus. A nota fiscal foi paga pela Transbrasiliana sem especificar o período do pagamento, a duração do trabalho e nem o início.

Outro lado, venda de patrimônio deve fomentar investimentos no grupo
Os gestores judiciais recomendaram que imóveis pertencentes aos empreendimentos fossem vendidos para capitalizar o grupo e que 10% dos créditos trabalhistas sejam pagos antecipadamente.

Os demais pagamentos e assuntos relacionados ao Grupo TTT serão discutidos na continuação da assembleia, prevista para 29 de janeiro de 2019.

Sócio Cláudio Montoro, que cuida da recuperação da Transbrasiliana
As empresas compostas pelo grupo possuem diversos imóveis, frotas de ônibus e a concessão das linhas de transporte interestadual de passageiros no Estado de Goiás e conta com um passivo de cerca de R$ 200 milhões. “Alguns incidentes de credores que discutem os valores de crédito ainda aguardam julgamento e não foram contabilizados”, diz Claudio Montoro, sócio do Grupo Capital, que conduz a administração judicial.

Segundo Claudio Montoro, o dinheiro obtido pela venda de imóveis irá fomentar os investimentos nas empresas, logo o aumento de arrecadação no fluxo de caixa.

Na Assembleia de 19 de novembro, os presentes decidiram criar a Sociedade de Credores a ser constituída pelas recuperandas em nome dos credores que farão parte da mesma. Os custos e despesas necessários para a constituição da Sociedade serão arcados pelas empresas recuperandas. O documento emitido na Assembleia ressalta que a Sociedade de Credores não será constituída para os credores trabalhistas e farão parte apenas os credores com Garantia Real e Quirografários (ME & EPP). Os pagamentos aos credores trabalhistas serão pagos exclusivamente em dinheiro.

As recuperandas também ficarão encarregadas das vendas dos imóveis sugeridos e os valores deverão ser pagos pelas empresas até o dia 7 de janeiro de 2019. Os imóveis levantados para venda devem arrecadar R$ 11 milhões para quitar tais débitos aprovados.

No total serão vendidos 10 imóveis: um localizado no Pará, no valor de R$ 9,3 milhões; lotes de terras em Rio Quente de Goiás, no valor de R$ 90 mil; cinco imóveis urbanos em Tocantins, que valem R$ 340 mil; um imóvel em Anápolis, cidade próxima da capital goiana, que vale R$ 3 milhões; um lote no Pará, no valor de R$ 250 mil, e lotes no Tocantins, que somam R$ 1,4 milhão.

Caso não sejam vendidos imóveis suficientes para pagar todos os credores em 12 meses, os mesmos ficam como garantia de pagamento por 180 dias. Neste prazo, os bens poderão ser vendidos independentemente de avaliação. Caso o pagamento não for efetuado até o final deste prazo, o plano será considerado descumprido. A empresa responsável pela elaboração da recuperação é a 2C Turnaround Consulting.

A empresa Capital Administradora juntou os documentos e assinaturas na assembleia de segunda-feira, 19, e registrou no sistema do Tribunal de Justiça de Goiás às 20h09. O juiz Aureliano Amorim emitiu a decisão de vender os imóveis após uma hora e quarenta minutos do registro — às 21h48 do mesmo dia.

O magistrado argumentou na decisão que “uma grande quantidade de credores trabalhistas foi amplamente prejudicada com demissão sem pagamento de qualquer valor de suas rescisões. Por se tratar de verba alimentar, a falta de um mínimo de valores afeta gravemente a subsistência de tais credores”.

Na decisão, o magistrado autorizou a venda dos imóveis elencados com dispensa de Certidão Negativa de Débitos e baixa em eventuais proibições, restrições ou gravames, administrativos ou judiciais que existam sobre o imóvel, à exceção de alienação fiduciária.

O objetivo da recuperação judicial é evitar que as empresas sejam levadas à falência, manter empregos e continuar as operações. O grupo Transbrasiliana contempla as empresas Rápido Marajó, Transbrasiliana Especiais e Fretamento, Transbrasiliana Hotéis, Transportes Coletivos de Anápolis, Nasson Turismo e Transbrasiliana Encomendas e Cargas.

Grupo Transbrasiliana deve 80 milhões de reais para o governo de Goiás
O grupo Transbrasiliana possui 92 pendências registradas no Cadastro de Inadimplentes do governo de Goiás (Cadin) em dois CNPJs diferentes. O primeiro com a maior quantidade de dívidas é o 01.016.989/0001-94, registrado em quatro cidades de Goiás: Rialma, Uruaçu, Anápolis e Ceres. O segundo, 01.016.989/0032-90, tem quatro cadastros negativos e está registrado em um endereço na Avenida Perimetral em Goiânia.

Por meio da Assessoria de Imprensa, a Secretaria Estadual de Fazenda informou ao Jornal Opção que não pode divulgar detalhes das pendências registradas, como datas e valores, a fim de manter o sigilo fiscal da empresa. Mas estima-se que as dívidas com impostos estaduais cheguem a R$ 80 milhões.

O superintendente de Recuperação de Crédito da Secretaria Estadual de Fazenda, Luciano Caldas, explica que o governo estadual atua em dois momentos para cobrar seus créditos: primeiro convoca a empresa devedora para renegociar a dívida e, se não houver sucesso, inscreve o CNPJ no Cadastro de Inadimplentes (Cadin). “Quando a empresa vai para o Cadin, a Sefaz tem 180 dias para comunicar a inscrição à Procuradoria Geral do Estado e eles têm 90 dias para executar a dívida”, sublinha.

                                    Superintendente de Recuperação de Crédito da Sefaz, Luciano Caldas
A empresa em processo de recuperação judicial no Estado de Goiás pode ser beneficiada por meio de um convênio e, deste modo, pode conseguir parcelar seu ICMS devido em até 108 meses. No caso da Transbrasiliana, a Procuradoria Geral do Estado de Goiás já realizou três execuções fiscais relativas ao débito com o governo estadual. A primeira, registrada sob o número 200100695145, tem o valor atualizado de R$ 32,1 milhões; a segunda, com o número 200101743615, no valor de R$ 554 mil; e a terceira, sob o número 200500227971, no valor de R$ 13 milhões.

Apenas em uma lista de 55 páginas com credores cadastrados, o grupo de transporte rodoviário acumula dívidas de R$ 29,4 milhões — os créditos são derivados da Legislação Trabalhista e Acidentes de Trabalhos. Em sua maioria, os credores são colaboradores e ex-colaboradores do grupo, divididos em várias especialidades, entre mecânicos automotores, motoristas, auxiliares gerais, assistentes e analistas. Alguns motoristas, por exemplo, possuem créditos individuais de R$ 71 mil com a companhia. A lista dos credores e respectivos valores a receberem está disponível no site da administradora Grupo Capital na internet.

O grupo Transbrasiliana deve mais R$ 81 milhões a fornecedores, entre eles postos de combustíveis e empréstimos bancários. A Companhia Energética de Goiás, agora Enel, tem R$ 196 mil a receber. O Banco Volkswagen S/A é credor de R$ 16 milhões derivados de empréstimos. Outras dívidas com empresas de pequeno porte somam R$ 422 mil. Esses credores são chamados de quirografários, que não gozam de preferência no recebimento em relação aos demais.
A empresa deve 500 milhões de reais. Mas o magistrado Aurelino Amorim avalia que, com negociação e Refis, o débito pode ser reduzido
Em entrevista exclusiva, Juiz diz que “chance de falência da Transbrasiliana caiu de 99% para 30%”

O juiz Aureliano Albuquerque Amorim, da 4ª Vara do Fórum Cível de Goiânia, falou conosco duas vezes, por telefone, sobre o processo de recuperação da Transbrasiliana, empresa que, durante anos, foi gerida por Odilon Walter Santos. O magistrado prontificou-se a esclarecer todos os passos da pendenga judicial. A entrevista, gravada, é publicada integralmente.

Qual o próximo passo após a Assembleia Geral dos Credores da recuperação judicial do grupo Transbrasiliana?

Na Assembleia iriam decidir sobre duas coisas basicamente. Uma é o plano de recuperação judicial apresentado e a outra é o pedido de alienação de imóveis de forma antecipada para saldar alguns compromissos, dentre eles alguns trabalhistas. A Assembleia aprovou a venda dos imóveis e entendeu por bem adiar o plano de recuperação para o final do mês de janeiro de 2019. Isso foi decidido na segunda-feira, 19 de novembro deste ano. Ainda não foi decidido se o plano de recuperação vai ser admitido ou não. Ele ainda está em discussão porque são muitos credores e houve necessidade de tempo para negociar com outros credores — porque é um problema muito sério. Se alguma classe de credor não aprovar, a empresa quebra. Então é preciso ter um cuidado muito grande e por isso foi adiado para o final de janeiro.

Já saiu a decisão sobre a venda antecipada dos imóveis?

Sim. A Assembleia Geral dos Credores já autorizou e mandei expedir os documentos necessários. Eu dei cumprimento àquilo que a Assembleia decidiu.

Esses imóveis tinham penhora de bens de outros credores?

Todos têm penhora e bloqueios. Mas a recuperação judicial permite que a Assembleia Geral de Credores e o juiz retirem esses bloqueios em benefício da própria empresa. Todos os credores e classes de credores concordaram com a venda com 87% de aprovação. Neste caso é possível tomar estas providências — afastar as penhoras e alienar.

O grupo Transbrasiliana foi vendido no final de 2016 para um grupo investidor de São Paulo. Um dos sócios foi preso em 2017. O grupo não deveria voltar aos antigos donos (Grupo Odilon Santos)?

Os três sócios foram afastados. Não volta, por enquanto, porque vai depender da aprovação do plano e demais recorrências do processo. Não há previsão disso no momento. Mas, no futuro, obviamente, isso deve acontecer. Ainda não sabemos quando e em que circunstâncias.

Há uma manifestação da Procuradoria da Fazenda Nacional apontando irregularidades no processo, como venda de cotas societárias e outros. O sr. já avaliou a manifestação ou vai julgar algo neste sentido?

Não tenho que fazer essa avaliação agora. Mandei dar ciência a todos os credores a respeito do posicionamento da União e a empresa já verifica a possibilidade de negociar os débitos com o governo federal. Eles terão que ser resolvidos, não no sentido de quitados, mas parcelados ou algo assim. Mas, isso pode ser feito posteriormente, não há nenhum impedimento para que seja feito agora. Mas a empresa já está trabalhando nisso.

Após os dois anos do início da recuperação judicial, a falência da empresa é decretada de forma automática? Como é a questão do prazo?

Não tem esse prazo. Esse prazo existe depois que for aprovado o plano de recuperação. Não é que seja decretada automaticamente a falência. Se a empresa não cumprir o processo — após os dois anos —, entende-se que está consolidada a situação e as pessoas têm que entrar com a execução normal. Quando faz o plano de recuperação, a empresa coloca, por exemplo, que vai pagar tantos porcentos ao ano em um prazo de cinco, oito ou 10 anos. Todo ano ela vai pagando. Se a empresa pagar tudo nos dois primeiros anos iniciais, não se pode mais decretar a falência. Se não pagar os dois primeiros anos, é possível decretar a falência.

A própria administradora da recuperação judicial, a Capital Administradora, recomendou não vender as cotas societárias para os atuais sócios de São Paulo. Mas a venda foi autorizada.

Não. Quando entrou com o pedido de recuperação judicial, a empresa pertencia a dois grupos familiares: do Odilon Santos e do pessoal dos Braga. Eles venderam a empresa para três paulistas, os atuais donos, e pediram autorização judicial para isso. Na época nós fizemos uma verificação, uma audiência, e houve o parecer pela autorização da venda e autorizei a venda para os três. Depois, os três sócios fizeram algumas coisas erradas na empresa e afastei-os da administração. Depois, os três entraram com um pedido para transferir a sociedade para apenas um deles, o Milton Júnior. A Capital foi contra a transferência e indeferi. Houve dois pedidos de transferências — um no início, que deferi, e outro recente, que indeferi.

No primeiro deferimento, chegou para o sr. alguma investigação da reputação das pessoas que queriam comprar a empresa?

Na época, nós fizemos uma reunião, que está no processo e foi gravada, e a informação que se tinha era de pessoas que atuavam na área, no comando do Grupo Itapemirim, e tinham condições de erguer a Transbrasiliana porque eram do ramo. Por isso foi aprovado na época.

Com a sua experiência em casos de recuperação judicial, a Transbrasiliana tem condições de se reerguer?

Quando essa recuperação judicial entrou, a chance dessa empresa ir à falência era de 99%. E hoje, depois de dois anos de recuperação, raciocino que a chance de falência de 30%. Não posso dizer se vai dar certo ou não. Mas posso dizer que a situação dela hoje é muito melhor do que era em 2016.

Os débitos da empresa são altos, na casa dos R$ 500 milhões.

São altos à primeira vista. Numa segunda vista, com negociação e com um Refis, isto pode ser reduzido consideravelmente. Quem vê primeiro, assusta, mas não é de assustar. É preocupante, sim. São valores consideráveis, mas não no limite em que aparentam.

Se a empresa falir, o débito para os credores é muito alto.

É um débito grande para todo mundo: fornecedores, governos e credores em geral. Mas principalmente os trabalhistas. Quem mais sai prejudicado nesta história são pessoas pobres que foram demitidas e não receberam nem 1 real.

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