Header Ads

ad

A excêntrica vida de um busólogo

Por Bruno Fonseca/Redbull
Um provérbio português diz que há gosto pra tudo. E realmente é verdade. No caso de Marcos Paullo, 31 anos, funcionário público, morador da região metropolitana da cidade de São Paulo, seu hobby é gostar de ônibus! Num primeiro momento chega até a causar estranheza. Como assim? Apaixonado por ônibus? Estes mesmos do transporte público? Estes que por vezes despertam tanto o ódio das pessoas? Principalmente daquelas que dependem de condução e geralmente residem nas áreas periféricas da cidade? Sim. E não são apenas destes, mas também de ônibus rodoviários - conhecidos popularmente como "ônibus de viagem". E foi em um desses, numa viagem de três dias de São Paulo para Pernambuco, que Marcos Paullo - vulgo Marcão - descobriu a sua paixão pelo objeto que se movimenta por propulsão mecânica e transporta pessoas para os encontros e desencontros da vida.

O trajeto de 2.627 quilômetros entre a capital paulista e Vitória de Santo Antão, cidade da região metropolitana de Recife, PE, foi o suficiente pra ele fazer de um ônibus da Viação Itapemirim sua própria casa durante 72 horas. Dona Maria Augusta, mãe do Marcão, o deixava solto pelo corredor junto com os outros irmãos para desbravar entre poltronas e passageiros os detalhes de um ônibus.

"Eu não tinha muito o que fazer dentro do ônibus, por isso comecei a observar primeiro dentro dele e fui criando meus símbolos e minhas imagens. Quando tinha as paradas, eu observava o meu ônibus por fora e os ônibus que estavam ao meu redor. Por exemplo: tal coisa era igual ao o que eu estou, tal coisa é diferente. Só que eu criava meus próprios símbolos na cabeça. O farol, eu não sabia que se chamava farol, eu dava um nome pra ele que agora eu não vou me lembrar, mas era assim. Minha paixão por ônibus começou aí, viajando em um ônibus da Itapemirim. Que é minha empresa de ônibus favorita."

Dos três anos de idade até a popularização da internet banda larga, Marcão se virava como podia pra alimentar o seu hobby e colocar mais informações sobre os ônibus na sua bagagem. Não havia mais nada nas enciclopédias Barsa sobre eles que Marcão não soubesse. Se aparecia alguma notícia sobre ônibus em jornal ou revista, já era! A revista ficaria sem algumas páginas e os jornais ficariam com algumas notícias faltando. Ele arrancava tudo sem dó nem piedade. No período de sua vida analógica, parecia mais um lobo solitário, achava que só ele carregava esse gosto um pouco diferente dos demais.

"Eu pensava que era sozinho no mundo com esse gosto peculiar. Era uma paixão reprimida, era eu e eu. Algumas pessoas sabiam, mas ainda assim era reprimida. Não tinha como expandir, então eu criava o meu próprio universo. E eu não fotografava como agora, pois as câmeras na época eram caras e os filmes mais ainda. Mas eu sempre fui ligado no movimento. Antes da internet era mais de observação com muita pesquisa e curiosidade. Eu observava muitos ônibus na rua mesmo, sempre gostei de andar pela cidade e isso me ajudava muito a aprender sobre eles."

Durante as milhares de pesquisas que fazia corriqueiramente, Marcão adquiriu a habilidade especial de conhecer a maioria dos itinerários das linhas de ônibus que rodavam na capital paulista e também na região metropolitana.

"Foi andando pelas ruas da cidade sempre com aqueles famosos ‘guias de rua’. Mas de 80% eu descobria os itinerários andando mesmo. Eu tenho até hoje uma coisa comigo de fazer trajetos diferenciados. Um trajeto que pode ser feito por apenas um ônibus eu consigo fazer com até cinco. Eu vou descendo e pegando outro até chegar aonde eu quero. E quando eu estou sozinho na rua eu acabo fazendo umas aventuras, pois não é qualquer ônibus que eu quero ir. Se eu vejo que tem um ônibus diferenciado na linha, eu espero ele passar e pego ele. Até hoje eu faço isso voltando do trabalho. Se eu não estou muito cansado e não estou com pressa, eu olho no aplicativo e vejo qual modelo de ônibus está na linha, espero o que eu quero passar e viajo nele."

Por definição, "Busólogo" é o termo dado para uma "categoria de pessoas" que é apaixonada por ônibus. Ele surgiu por intermédio do engenheiro Hélio de Oliveira, designer de ônibus e ex-funcionário da extinta fábrica de carrocerias Thamco. O engenheiro era apaixonado por ônibus e coletava todo tipo de material relacionado. Por causa disso, os colegas de trabalho de Hélio, na Thamco, decidiram chamá-lo de "busólogo".

Marcão se tornou uma enciclopédia viva. Qualquer coisa que você perguntar para ele sobre ônibus a resposta vem de imediato. A varredura que ele faz em seu servidor orgânico desafia qualquer busca otimizada pela internet. E não estou brincando quando falo sobre isso. Abaixo estão dois exemplos. Tirei a foto de um ônibus e perguntei sobre qual seria o modelo. Na outra imagem, tirei a foto apenas da placa de uma rua que fica na zona norte de São Paulo e perguntei sobre qual ônibus passava por ela e fazia um determinado itinerário.

Marcão tem um acervo de mais de 10 mil fotos digitais só de ônibus, 110 miniaturas de diversos tamanhos que ficam expostas em seu quarto, além de mais de mil itens que fazem alusão a ônibus como quadros, recortes de jornal e revistas, publicações especializadas, livros e fotos impressas. E tudo isso ainda é pouco para o tamanho da paixão que carrega, ainda tem os recordes que ele impõe e vai tentando bater a cada ano. Um deles é andar em quantos ônibus for possível em apenas um dia. Em 2008 ele andou em 10 ônibus, em 2011 ele conseguiu chegar na casa dos 16 e, em 2014, a façanha foi andar em 25 ônibus urbanos em um único dia. 

Quando o assunto é ônibus de viagem, a meta é tentar andar no máximo de ônibus possível para fazer um trajeto intermunicipal. Marcão saiu de Presidente Venceslau, interior de São Paulo, e foi até a Capital. No trajeto que dura nove horas com apenas um ônibus, ele conseguiu fazer em 16 horas em quatro ônibus. É mole?

Houve uma época em que a internet foi habitada por sites destinados apenas para a publicação de fotos - os famosos fotologs - hoje em dia toda a mecânica desses sites podem ser encontradas facilmente em aplicativos como o Instagram. Mas naquela época era uma verdadeira febre, tanto na plataforma oficial que limitavam os comentários e as quantidades de fotos que poderiam ser publicadas por dia se você não desse uma graninha pra eles, quanto nas plataformas genéricas que tinham a mesma função, mas não o mesmo prestígio. Foi numa dessas que Marcão ficou sabendo que não estava sozinho e que no mundo havia mais pessoas como ele.

"Com os fotologs, principalmente o do portal Terra, eu vi que não estava sozinho e a gente começou a se reunir pra fotografar ônibus. A gente até comenta que o Terra foi o nosso ‘patrocinador' (risos). A gente publicava fotos e um comentava na foto do outro, trocávamos informações e, depois disso, migramos para o Orkut e também para o MSN. A partir daí, vimos que precisávamos também migrar para o físico."

Dona Maria Augusta ainda considera tudo isso que o filho faz legal, mas até um certo ponto.

"Em parte eu acho bacana, mas tudo dentro do limite. Quando passa do limite já é uma doença, ou seja, uma obsessão. Passou disso pra mim já não funciona. Às vezes eu até falo pra ele que na época que ele nasceu, já existia ônibus. Precisava ter mais juízo, e achar que isso é coisa de criança e não pra ele que já está velhinho".

Marcão retruca sempre com muito bom humor, que tudo isso começou por causa dela e que ela é a grande culpada. Essa paixão pelo busão ainda possui outras nuances. Ele carrega uma devoção enorme por um modelo fabricado pela Caio (encarroçadora) chamado Vitória. Ele foi muito usado pelas empresas nos final dos anos 1980, também durante as décadas de 1990 e até meados dos anos 2000.

Esse amor é tão grande, que durante todo o dia que passamos na bota dele, durante a 12ª edição da BusBrasil Fest - considerada a maior exposição de ônibus da América Latina -, que ocorreu na Praça Charles Miller, em São Paulo, Marcão usava uma camiseta branca que levava no peito a estampa do ônibus "mágico". Conversa vai, conversa vem, não era numa mesa de bar, mas sim num dos bancos de um Caio Vitória, que ele contou os verdadeiros motivos de todo o amor que sente pelo bichão de quatro rodas.

"Ele é meu preferido por ser todo quadrado. E quando eu comecei a entender um pouco mais de ônibus, ele era o que estava na moda. Todas as empresas tinham esse modelo, e aquela que não tinha não era considerada uma empresa muito boa. Ele era um verdadeiro arroz de festa. Eu comecei a andar muito nele e observá-lo mais que os outros, aí acabei criando um vínculo e é meu preferido até hoje."

Assim que nós descemos do busão durante o evento de exposições que rolava na praça em frente ao icônico estádio do Pacaembu, Marcão foi abordado por outro cara que também é busólogo e ofereceu para ele um Caio Vitória usado pela bagatela de nove mil reais. Os olhos do menino brilhavam com a possibilidade de ter seu próprio ônibus, mesmo sem saber aonde guardar ou como faria para dirigí-lo, pois ele não possui CNH, mas mesmo assim era a possibilidade de realizar um sonho. Marcão acabou recusando a oferta, pois se lembrou que entrou no financiamento de um apartamento na região da Nova Luz, que fica próximo ao centro histórico da cidade, e desistiu da ideia e do sonho logo em seguida.

Entre uma poltrona e outra, entre corredores e o cheiro de óleo diesel no ar, fomos nos embrenhando em outros itinerários que a vida do Marcão já percorreu. Em uma dessas viagens, ele acabou fundando uma associação para juntar os busólogos de SP em uníssono.

Enquanto o Marcão registrava um momento marcante sentado no banco do motorista da nave amarela da Itapemirim, ficava ainda mais evidente o quanto aquela máquina movida a óleo diesel significava pra ele.

Visitamos mais algumas unidades que estavam estacionadas em frente ao Pacaembu e logo depois seguimos o caminho de casa. Fomos juntos até um ponto de ônibus da Av. Pacaembu, ele embarcou num Caio Millennium BRT, nós embarcamos no nosso, e nos despedimos ali.

Um comentário:

  1. Ja morei em Vitoria de Santo Antão, e eu via muitos itapemirins rodando por lá, na linha São Paulo x Timbaúba e vice-versa.

    ResponderExcluir

O Fortalbus se reserva no direito de selecionar os comentários.